Meu pé de tamarindo (parte 1)



“A gente percebe que está ficando velho quando começa a tomar chá”. Foi a frase que o tio de um amigo me disse há muito tempo. Engraçado… Hoje, que sou velho e não tomo chá, observo as casas à volta, que se erguem do chão como árvores, as mesmas árvores que foram cortadas para a sua construção. Nenhum espelho me contaria mais sobre a passagem do tempo do que elas.

No quintal, tomado por concreto, já cresceu de tudo: milho, abacate, manga espada, manga coração de boi, jaca, goiaba branca e vermelha, cana-de-açúcar, jabuticaba, tamarindo. Meu pé de tamarindo, que eu chamava de meu, mas papai era quem havia plantado, era o irmão mais velho das árvores do quintal. Fora plantado bem antes de eu nascer. A tâmara da índia, o tamarindo, que o pessoal chamava de “tamarina”.

Ainda me lembro do balanço pendurado no seu galho mais forte, feito de madeira de obra e de uma corda azul de não sei o quê. Foi nele que uma lagarta verde queimou minha perna quando eu tinha uns 8 anos de idade e minha irmã cuidou de mim. Raiva? Só da lagarta! Do pé de tamarindo ninguém tinha raiva! Era minha casa na árvore e nem precisava de estrutura. Seus galhos eram fortes e seguros e as lagartas eram raras. Não era como a amendoeira do Seu Tião, cujos frutos não eram amêndoas e sim lagartas de todos os tipos. Parecia que todos os meninos da rua tinham inveja do meu pé de tamarindo (Besteira! Eu é que me envaidecia…).

Dessa árvore decenária vinham muitos benefícios. Os frutos verdes a meninada usava para fazer peso de marimbas, que eram usadas para tirar pipas da mangueira em frente ou da outra amendoeira da rua na casa do Jean. Os tamarindos maduros davam um suco forte, que só prestava gelado e com umas boas colheradas de açúcar. Desse suco vinham os sacolés, que a gente chamava de “laranjinha”, mesmo que não fossem de laranja e…

– Com licença, amor. Quer mais suco? – Minha esposa entra na varanda.

– Não, amada, obrigado. Estou conversando com o tio Abel sobre umas histórias de infância. (Dirijo-me a ele) O senhor quer mais café ou suco?

– Não. Estou satisfeito. Obrigado.

Então, como eu dizia, todo mundo gostava da árvore, que dava sombra, dava suco, dava fruto, dava geleia, dava tudo. Além de tudo era um ótimo esconderijo no pique-esconde. Lembro que nas cinco primeiras vezes, até descobrirem meu lugar secreto, o tamarindeiro serviu-me de refúgio. Ninguém me achava. Aí o Careca me achou no primeiro galho e me obrigou a encontrar outro lugar para brincar. Eu, teimoso, preferi criar coragem e subir aos galhos mais altos. À noite, quando alguém olhava para cima, só via galhos escuros. Mas lá estava o Fernandinho escondido, camuflado, como um lagarto, espalhado.

Uma vez, adormeci esperando alguém me achar. A brincadeira acabou, todo mundo foi pra casa e lá estava o lagarto no pé de tamarina. Na manhã seguinte, eu estava na cama da minha mãe, que a casa era pequena para o tanto de irmãos que eu tinha e não havia quarto nem cama para cada um. Tomei café e fui para a escola. À tarde, fui jogar gude com meus colegas. Era uma segunda-feira, eu acho. O Brim deu um teco muito forte na gude do Peido e ela pulou o muro da minha casa e foi cair no meu quintal, ao pé da tamarineira. Aproveitei que ele tinha perdido e fui puxar assunto:

– Ô, Peido!

– Fala, Verme!

Peido era o apelido do Deivid. Verme era o meu. Ninguém me pergunte os porquês.

– Que horas terminou a brincadeira ontem?

– Que brincadeira?

– O pique-esconde, ué!

– Não sei… Umas dez da noite eu acho. Por quê?

– Nada… É que eu dormi no pé de tamarindo de novo…

– Qualquer dia desses vai cair de lá… Melhor tomar cuidado…

(Continua na próxima postagem…)

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