Naquele tarde, não teve brincadeira. Alguém muito querido na rua havia morrido. Não lembro quem era. Eu soube porque vi as donas da rua reunidas, com minha mãe. Dona Irene, Dona Ângela, Dona Manela e Dona Isabel. O assunto rendia debaixo dos guarda-chuvas que as protegiam de uma chuvinha fina e chata que caía. Os olhos de Isabela e Alexandra, filhas da Ângela e da Isabel, respectivamente, contaram-me tudo.
No fim de semana ensolarado, muitas pipas no céu, de todas as cores e tamanhos. O Seu Cláudio me deu de presente, sem razão especial, um carretel de linha – que na época era chamado de “deizão”, poque tinha o número 10 no rótulo e era maior que o carretel menor, o “deizinho”. Deu-me também um saco de pipas com umas cinquenta oportunidades de ser feliz. Eu e meu irmão Beto brincamos a semana inteira na volta da escola. Foi o quanto durou. Meu irmão mais velho, Ivo, gabava-se de ser o “menino mau da pipa”. E cortava todo mundo, ou quase. Vez por outra uma pipa agarrava no pé de tamarindo e era uma correria para ver quem conseguiria tirá-la de lá primeiro a marimbadas.
Fui à padaria do Nabor comprar pão com mortadela e um refrigerante Simba, no bar do Zé Gotinha, porque lá era mais barato, segundo minha mãe. Na fila do pão, encontreio o Careca.
– Fala, Fernandinho!
– Fala!
– Viu aquele pipão com rabiola de plástico preta e branca, que agarrou no pé de tamarina?
– Vi sim. Parece que ainda está lá. Ninguém conseguiu tirar.
– Tá não, mané! O Deivid conseguiu.
O Deivid era realmente muito mirolha com marimbas.
– Ah! Tá… – Falei meio frustrado, porque meu plano era subir na árvore o mais alto que pudesse e tentar pegar aquele pipão com um bambu. Se eu conseguisse, pediria ao Beto para colocar a pipa no alto, porque eu não era muito bom nisso. A gente colaria os rasgados com grude feito de arroz branco, usando papel fino do Armarinho Eliane para tampar. Se houvesse alguma vareta quebrada, era só amarrar com linha e colar com a cola de madeira do meu pai. Não havia uma pipa quebrada que meu irmão não consertasse. E de linha embolada, então, ele entendia melhor que ninguém. Meu plano, porém, foi por água abaixo. O Deivid chegou primeiro.
Fui procurá-lo, um pouco curioso de saber se ele subiu no tamarindeiro, um pouco invejoso de ele ter pegado a pipa e eu não – uma bobagem porque eu ainda tinha umas 20 daquele presente do Seu Cláudio. Ele me mostrou o pipão, com a vareta da antena parecendo um satélite, o papel fino todo preto, com uma águia enorme no centro (a gente que era menino adorava essas coisas), a rabiola enorme de plástico preto e branco, para ninguém botar defeito, fitas finas e rigorosamente cortadas à tesoura para ficarem do mesmo tamanho. Praticamente intacta. O único detalhe que reparei era um furo no lado direito, perto da primeira vareta transversal, que servia para consertar a pipa que estava “dando de lado”, quer dizer, indo sozinha para um lado só, oposto ao furo.
Ele percebeu meu olhar de desejo pela pipa e tratou de guardá-la, antes que passasse algum invejoso e tacasse uma pedra bem no meio dela para estragar. Então, mudei de assunto:
– Vai brincar de pique-esconde hoje?
– Não sei, quem mais confirmou?
– Eu, Careca, a Bela, o Diogo… Deixa eu ver… O Rodrigo, o Juninho Pulga, a Alexandra, a Vanessinha, o Rafael e os Ciganos. É… tem bastante gente…
– Tá bom. Eu vou também. Daqui a pouco. Deixa só eu fazer o dever de amanhã, que minha mãe tá me cobrando aqui.
Quando a brincadeira começou, eu quebrei meu protocolo e não fui subir em árvore. Usei a tática do Careca – que acabou não indo brincar – e me escondi atrás do poste. “1, 2 , 3 Fernando!”. Consegui. Alguém disse que não valia. O Deivid me defendeu. Vale sim. Na segunda rodada, confundi todo mundo. Esqueceram-se do pé de tamarindo. Eu não. Lá estava eu. Ninguém me achou. O Rodrigo foi me procurar.
– Ué?! Onde está o Fernandinho?
– Vai ver no pé de tamarina! – alguém disse – Ele está se escondendo lá direto.
Ele foi. Até subiu no muro, mas não conseguiu ver nada, porque na frente da minha casa não tinha lâmpada. Estava completamente escuro em cima e embaixo do tamarindeiro. E eu já havia achado um galho bem lá em cima, onde só eu, pequeno e leve, conseguia alcançar. De tanto tentar em vão, desistiram. E eu dormi de novo. E de novo acordei na cama da minha mãe. No café, fui resolver o mistério:
– Mãe, a senhora me viu na árvore ontem?
– No pé de goiaba?
– Não. No pé de tamarindo.
– Vi não meu fi. Você caiu? Aconteceu alguma coisa?
– Não… É que não me lembro de ter descido de lá para vir dormir.
– Estranho… Você deve ter descido e não lembra. Quando eu cheguei da casa da Dona Eidi, você já tinha pegado no sono.
– Deixa pra lá, mãe. Eu devia estar cansado. Passa a manteiga?
Cada migalha de pão que eu molhava no café preto, eu demorava o dia inteiro para comer, porque estava pensando se aquilo tinha sido um sonho. Mas duas vezes? Pode? Os dias se passaram como um conto ligeiro. As brincadeiras de então foram-se com ele e deram lugar a novos jogos e brincadeira, mais virtuais que divertidas. Ainda me lembro que na noite seguinte o Peido foi quem resolveu surpreender. Foi à escola, fez o dever de casa (não sem a insistência típica da mãe), tomou banho e foi dormir. No dia seguinte, ninguém o achava. A mãe não queria que o pai soubesse. Uns entraram em desespero: “chama a Polícia!”. Outros: “deve estar embaixo de algum carro”. Todo mundo começou a procurar, desesperados.
Ninguém sabia onde ele estava. Eu sim.

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