Foi de manhã. Mais ou menos umas oito horas. Um primo, morador e conhecedor da região, chamou a Mariinha para subir o morro que ficava do outro lado do rio. Rezava uma lenda que havia no lugar uma cobra diferente de todas. Que raio de nome! “Cobra de veado”. Apelidaram-na assim porque diziam que ela tinha chifres como o mamífero. Aí a curiosidade falou mais alto e a Mariinha foi lá ver.
Ela não morava em Pernambuco, morava no Rio. Veio a passeio visitar os primos. Era peristáltica. Curiosa e veloz de atos, impetuosa feito a última fase da digestão. Linda, como a maçã mais vermelha do lote, em cuja polpa há um ponto enegrecido de ciúme, de inveja, quase tão malévolo quanto um tumor. Aquela borboletinha graciosa e colorida, mas venenosa. Mesmo assim tinha um nome lindo de mar em plural neutro, solidificado pelo Rocha. Maria Oliveira Martins Rocha. Maria Rocha. A beleza herdara da mãe, Desiré Oliveira. O Ciúme, o espírito jocoso e jactante eram os mesmos do pai, Flávio Martins Rocha. E dessa mistura nascera e crescera a menina, num lar humilde de Velho Brejo, estado do Rio.
Agora despida de seu ambiente favorável de região metropolitana, onde desfilava na escola e na rua como se fora a última rapadura da feira, Bó, Dé e Tuta, seus primos (Roberto, Délio, e Altomiro) observavam-na, um pouco curiosos, outro tanto interessados, mas com aquela prudência típica dos interiores, coisa de gente que já enfrentou seca, fome, bicho e gente chata e mimada. Ensinavam-lhe o necessário e aprendiam dela qualquer bobagem de cidade grande, nada realmente útil para vida por lá.
Em casa, no Rio, a parte da Mariinha que ninguém conhecia vinha à tona: uma parte frágil, sensível, algo de bobo e deslumbrado com a natureza. Todas as madrugadas, Mariinha ia olhar a lua. Ela sentia um prazer inexplicável ao abrir a porta de compensado duplo, pintada com tinta-óleo branca, que a trancava no quartinho estreito feito um esquife. Tinha o tamanho de um banheiro simples de meia-água. As paredes mal pintadas por suas próprias mãos com uma cor fosca, amarelada, os cantos do teto borrados e o rodapé feito com os cacos do piso usado no chão deixando a quem entrasse a certeza de que por ali o acabamento não havia sido feito por profissional. Uma tonta, pasmada diante de um satélite. Nem parecia a Mariinha namoradeira, astuta, por vezes arrogante. Rolava de um lado para o outro da cama, olhava atentamente para a maçaneta cor de bronze em estilo colonial e via o reflexo de seu belo e feminino rosto transfigurado pelo formato côncavo.
Cercava com um afeto todo especial um quadro pendurado na parede, sobre a cabeceira da cama, uma gravura em metal, com cavalos se alimentando do pasto em um pequeno rancho. Essa imagem trazia à alma de Mariinha uma sensação de tranquilidade, de paz de espírito, que ajudava a dissipar as trevas de seus atos. Logo abaixo dessa estimada moldura, havia um cartão de natal com a oração da manhã, a qual certo dia ela, depois de ler e achar interessante, colou com adesivo plástico na parede. Uma hipócrita, preguiçosa. Desde o dia em que leu pela primeira vez, na noite de uma véspera de Natal, prometeu cumprir aquele ritual matinal. A promessa durou uma semana.
O fascínio pela lua não era nenhum sonho de criança querendo ser astronauta. Nada disso. Talvez fosse uma sobra qualquer de consciência, pesando sobre ela em forma de insônia e convidando-a ao autoexame: seja uma pessoa melhor. Deixe de ser escrotinha. Quando pegava no sono, dormia até tarde, acordava tarde, tomava o seu café com leite e comia pão com mortadela defumada. Só gostava da defumada. Devia comer aquilo sonhando com caviar… Vai saber… À tarde ajudava a mãe nas tarefas de casa (pelo menos nisso ela tinha algum escrúpulo). Estudava à noite, porque sua indisciplina já havia obrigado a escola a trocá-la de turno duas vezes.
O pai tentou em vão demonstrar a ela a importância de estudar, para expandir a mente, ter assunto, passar em um concurso, empreender – tudo o que ele havia feito até então. Nada vingou. Mariinha pediu para passar as férias na casa dos parentes de um amigo, no Sul do Brasil. Desiré, mais permissiva, não trouxe nenhum óbice. Flávio Rocha, pelo contrário, mandou-a para ver parentes que há muito não via no interior do Nordeste. Ela foi, de ônibus, sozinha e meio a contragosto, mas convencida pela mãe de que seriam férias interessantes, em contato com a natureza.
Ao chegar em Cambucá, foi recebida por Tuta, o mais velho dos três primos. Chegou cedo e foi logo surpreendida pelo café da manhã com cuzcuz e carne de sol. A tia Bebel, irmã de Desiré, ficou muito feliz em vê-la:
— Vixe, menina! Mai cresceu, hein!
— É… Já faz um tempão que não vejo a senhora… Cadê o Bó e o Dé?
— Bó tá trabalhando no Centro. Dé foi na venda do Sizinando comprar umas coisinha.
Guardou as coisas, descansou um pouco e à tarde foi dar uma volta com Tuta nas redondezas, conhecer um pouco das árvores e dos pássaros que habitavam a região do Pipojuca. Quando o rio estava cheio, no seu curso intermitente, apareciam bichos e plantas de todo o tipo. Mariinha achou uma colmeia de abelhas africanizadas. E achou-a de um modo inconveniente: esbarrando nela. Só deu tempo de ouvir o primo:
— Corre!
Os dois correram de volta pra casa da tia Bebel com as abelhas em perseguição por um bom pedaço. Felizmente nenhuma picada. Mas, na correria, a mimadinha passou por um matagal cheio de urtiga e ficou com a perna queimando. Tuta cuidou dela passando um gel caseiro feito de babosa e ervas. Depois da “aventura”, foi tomar um café no quintal, sozinho, como gostava. Mariinha deitou na rede que ficava na sala. E parece que foi para pagar os pecados. Quando já estava quase pegando no sono, um escorpião saiu pela fresta do telhado e veio descendo lentamente pela corda da rede. Antes que a ameça pudesse alcançá-la, Dé chegou em casa e matou o bicho a vassouradas, a poucos centímetros da cabeça da prima. Ela levantou da rede num pulo:
— Ficou maluco, Dé?!
— Naaada, sua doida! Eu te salvei, visse!
— Ó aí, Ó! Esse escorpião tava perto da tua cabeça. Pronto… Agora não pica mais ninguém…
Tuta interrompeu o cafezinho, olhou para a cara branca de Mariinha, o escorpião escranzinado no chão, o Dé rindo sem parar e entendeu tudo. Tia Bebel ia sair de toalha do banho, mas ouviu a risada e logo entendeu que não havia sido nada demais.
À noite, sem nada para fazer, Maria foi pôr em prática um dos poucos bons hábitos que o pai conseguira enraizar nela: o da leitura. Não estudava na escola, porque não queria mesmo, mas lia muitos livros. Pegou na mala um exemplar de Olhai os Lírios do Campo, presente autografado por Érico Veríssimo ao pai de Flávio, e foi para a pracinha do bairro ler. Estava na parte em que Eugênio lê a carta deixada pela esposa morta, mais ou menos no trecho:
“Quero que abras os olhos, Eugênio, que acordes enquanto é tempo. Peço-te que pegues na minha Bíblia, que está na estante de livros, perto do rádio, e leias apenas o Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar nesse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo, que não trabalham nem fiam e, no entanto, nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles.”
A leitura foi interrompida por um jovem da sua idade, com uma cara sofrida de sol e uma cabeça que parecia joelho:
— Moça, boa noite!
Ela o olhou de cima a baixo e disse apenas: “boa”.
— Tu não é daqui não, né?
Ela levantou o rosto, limpo e branco como a lua rechonchuda e nua que brilhava. Depois de hesitar um pouco, incorporou a Mariinha do Velho Brejo:
— Olha, eu quero ler, você tá… Fazendo sombra – e fez aquela expressão azeda de quem está rindo forçadamente.
— Oxente! – Afastou-se Eguinaldo, como um cavalo selado que toma um tiro – Não precisa responder assim não, visse!
A cara de sofrimento dele aumentou. Ela segurou por um tempo, depois ficou rindo sozinha. Ele riu sozinho sem entender nada. E insistiu, com a voz mais anasalada da cidade:
— Tu é aquela prima de Tuta, é?
— Sou sim. Conhece ele?
— Pois aqui todo mundo se conhece, num sabe?
O instinto despertou quando ela parou de olhar para o jeito estropo de andar e falar do Eguinaldo e reparou na camiseta justa, o abdomen menor do que o dos primos, as pernas e os ombros fortes de quem trabalha e se exercita.
— Você faz o que da vida? Aliás, qual é mesmo seu nome?
— Oxe! Num falei não? É Eguinaldo. Mas os amigo tudo me chama de Naldo. Prazer.
Outro riso, desta vez espontâneo e imediato apareceu na boca de Maria:
— Prazer. O meu é Maria, mas todo mundo me chama de Mariinha.
O silêncio ajudou os dois a perceberem bem as luzes das casas em volta acendendo uma a uma e algumas cortinas se movendo lentamente, revelando olhos curiosos.
— Você gosta de ler, Naldo? –Disse ela, à vontade como uma adolescente do Rio em um lugar pacato.
— De vez em quando eu leio umas coisas, mas prefiro pescar. Que livro é esse?
— Olhai os lírios do campo, de Érico Veríssimo.
— É do Nordeste?
— Não. Na verdade, é do Sul. Mas já li outros bons livros de autores nordestinos. José de Alencar e Jorge Amado, por exemplo. E Ariano Suassuna! De Pernambuco…
— Siiiimmm… Pronto! Eu li o Auto da Compadecida faz um tempo… Acabei te atrapalhando, né? Desculpa.
— Tudo bem… Eu já estava ficando com sono mesmo… Você disse que gosta de pescar. É isso que faz da vida?
— Faço um pouco de tudo, num sabe? Pesco quando o rio tá cheio, colho o que plantei quando o rio tá vazio, faço artesanato de barro… E as entrega das venda por aqui tudo quem faz sou eu mesmo, de moto ou de Toyota… E você?
— Ah… Eu… Estudo. Não faço mais nada de interessante.
Maria olhou para a boca do pescador e passou involuntaria e discretamente a língua nos lábios. Ele percebeu e chegou mais perto:
— E tu tem namorado lá onde tu mora?
— Eu?! – Mariinha riu-se histericamente… – Eu só tenho 16 anos… Não tenho namorado.
Dessa vez foi ele que riu:
— Oxe! E daí? Eu tenho 17… Tu nunca namorasse não?
— Não. – Respondeu ela.
Os olhos de Eguinaldo brilharam como as águas do Pipojuca numa cheia de verão. O peito cresceu. Riu-se, piando feito pinto quando vê canjiquinha. Mariinha virou a cabeça levemente para o lado esquerdo e sorriu um sorriso tímido e fechado, como quem diz: “me beija!”. O beijo aconteceu. Ele, ainda se recompondo da grata surpresa de ter sido o primeiro beijo da prima do Rio, convidou-a a ir no dia seguinte com os primos no Açude de Cambucá, atrás do Morro dos Umbuzeiros. Se estiver cheio, dá pra tomar banho…
Ela aceitou. Aos olhos dele, parecia apaixonada. Aos olhos dela, era só mais uma conquista das suas andanças… Bó já havia feito o convite (não com a mesma intenção) há dois dias, por telefone, antes de ela chegar na cidade. Mariinha mentiu que nunca tinha namorado, só para ver no outro a adrenalina de conquistar, quando, na realidade, ela estava no controle o tempo inteiro. Despediu-se com mais um beijo, enquanto as luzes e as cortinas à volta se apagavam e se fechavam. Era a dona da cena, do jeito que o seu ego amava.
Foi pra casa. O montão de leite de cabra que bebeu ao longo do dia e as comidas típicas fizeram efeito no caminho e a vontade de cagar veio algum tempo depois naquela noite. Bó chegara cansado e fora tirar um cochilo na rede. Tuta estava consertando a bomba da cisterna para a mãe. Dé puxou assunto com ela no quintal:
— Fosse na praça?
— Fui sim. Conheci o Naldo, amigo do Tuta.
— Eita… Naldo é gente boa, num é?
— É. Ele falou sobre um açude…
— Pronto! Era isso que eu ia falar contigo… Tu vai amanhã?
— Você também vai?
— Vai é todo mundo! Ele não falou não? Vai eu, Bó, Tuta e Emilinha, filha de Isaura e de Sizinando.
— Então eu vou também. Cadê o Bó?
— Tá dormindo na rede.
— Tá bom. Avisa a ele que eu vou. Tem alguém no banheiro? Eu já volto.
— Vish! Pai tá no banheiro. Usa o cagador.
Mariinha fez uma cara de interrogação. Não sabia que cagador era uma estrutura antiga, uma cômodo de madeira simples com um buraco. A pessoa entrava, se agachava e… Cagava. Mas esse já estava era bem moderno. Era mesmo um banheirinho extra no quintal de casa. A estrutura era de madeira, mas tinha vaso, tubulação e descarga. Persuadida pela explicação do primo e pelo intestino grosso, foi lá. Sentou e olhou para baixo: um sapo. Todo sossegado. O sapo ficou lá. Quem pulou foi ela. E saiu correndo para o outro banheiro, que já estava desocupado (Graças a Deus!).
Depois do susto e do alívio, Bó (que acordara com a cagona desesperada) e Dé começaram a falar sobre uma história local com cara de lenda: a cobra de veado.
— Vocês acreditam nisso? – Perguntou ela, mais sarcástica que curiosa.
— Olha, prima… Essa é uma história que todo mundo conta faz muito tempo, num sabe?
— Mas vocês já viram a cobra?
— Você já viu? – Perguntou Bó.
— Essa não – respondeu Maria –, mas já vi outras.
A ambiguidade fez os dois meninos rirem imediatamente. A menina ficou séria e fez cara de retardada para debochar. E completou:
— Pois eu vou lá amanhã tomar banho nesse açude, só pra provar que vocês são medrosos.
Os primos ficaram com cara de descrédito, enquanto ela posava de corajosa. Tia Bebel apareceu com o olho miúdo e pôs ordem:
— Vocês trate de dormir! Tá tarde!
Eles foram. Ela ficou mais um pouco, olhando a lua. A mesma do quartinho do Velho Brejo. Um sapo no vaso na hora do número dois? A urtiga na perna… Que dia! Lembrou-se dos pais, que a autorizaram a ir sozinha. Uma grande chance de provar que não era estúpida e irresponsável. Lembrava do Eguinaldo. Nome curioso. Beijo bom. Ele vai amanhã? Tentava construir algum sentido daquele dia interminável. Por fim, rendeu-se ao sono como os outros.
A manhã seguinte pareceu uma antítese. Correu qual bom sal no saleiro. Banho, café, arrumar a mochila, separar o biquini, protetor solar. Os meninos foram só com a roupa do corpo. Bó estava de folga. Dé e Tuta não trabalhavam ainda. No caminho, Bó ia ensinando à prima sobre as árvores e os pássaros da região: a caatingueira, a urtiga, o umbuzeiro, os arapaçus, a ararinha-azul, os sabiás…
— O Naldo vem, Tuta?
— Ele disse que viria. Vai ver tá trabalhando…
No fundo, ela estava com saudade, mas nunca admitiria, orgulhosa que era. Preferiu fingir divertir-se no açude a manhã inteira a dar o braço a torcer. Era uma generosa porção de água represada atrás do Morro, uns 20 minutos de trilha aberta e tranquila até lá.
Emilinha estava lá, muito quieta, muito tímida. Parecia que Dé gostava dela e ela não fazia esforço nenhum para impedi-lo. Se chegaram a se beijar, foi no momento em que nadaram para um lugar mais afastado. Ninguém viu. Bó advertia que, quanto mais para o meio do açude mais havia lama e a profundidade aumentava e, com ela, a chance de se afogar. Excesso de preocupação. Todo mundo sabia nadar e o lugar parecia calmo.
— Cadê a tal cobra? – Provocou Mariinha.
— Vai ver ela comeu o teu namorado! – Disse Dé, colocando mais lenha.
Entre risos e conversas, Naldo veio caminhando de longe em direção a eles. Não. Era só um redemoinho de vento que passou. A paixão não veio, veio a fome. E o frio, por causa do vento. E todos foram embora almoçar, menos Dé e a filha de Sizinando, que ficaram mais um pouco. Maria interpretou a timidez de Emília por todo o caminho de volta. Falou pouco, não quis conversa. Disse que estava cansada, mas estava era pensando no beijo da noite anterior. Por que Naldo não veio? Vim de longe para ser feita de otária aqui? Prometeu a si mesma não falar mais com ele. E foi pra casa relembrar o gosto da carne de bode.
As horas e os dias passaram ligeiro. Pela culpa ou pelo destino, Naldo não encontrou sua paixão do Rio em mais nenhum dia das férias inteiras. O único fato novo foi a tragédia que rapidamente se espalhou pela cidade: Emilinha havia se afogado. Dé ficou inconsolável. Segundo ele, num minuto que ele parou para um mergulho mais longo, não a viu mais quando veio à tona. Tia Bebel consolava o filho como a um viúvo. O corpo não foi encontrado. E a tal cobra com galhos na cabeça não passava afinal de uma lenda, como Maria sempre soube. Não quis, contudo, gabar-se de nada. O momento era de luto e até ela, que zoava tudo e todos, compreendia que há limite para tudo.
Foi muita coisa para quinze dias. Muita coisa para o fim de semana da sua chegada. E chegou a hora de voltar para o quadro dos cavalos no rancho e as paredes amarelas. Bó foi levá-la de moto à rodoviária. Ficou um clima de pesar, um certo constrangimento. Nenhum dos dois sabia o que dizer.
— Prima, tu se importa se eu for agora? Eu tenho uns compromisso de trabalho lá na cidade.
— Não, Bó, obrigada. Vai com Deus.
O ônibus chegou uns vinte minutos depois. Antes dele, chegou o Naldo, como se nada tivesse acontecido:
— Maria, preciso falar contigo.
Ela fez a mesma cara de indiferença de quando se encontraram pela primeira vez.
— Oxe! É importante, mulhé! Num vô demorá não! – Insistiu Eguinaldo, com aquela rusticidade interiorana que no fundo a atraía.
— Tá, vem cá.
Maria o abraçou como quem queria ser consolada da morte de Emilia, que ela nem conhecia direito. Era mais uma desculpa para o terceiro beijo, longo, demorado e intenso, que superou os dois anteriores. Ela queria aproveitar o atraso do ônibus. Ele parecia apreensivo para contar algo:
— Tás sabendo da morte de Emilinha?
— Oxe! – Respondeu ela já com um pouco do sotaque no léxico – A cidade inteira tá sabendo…
— Tu tava lá?
— Tava. Quem não estava era você, que furou comigo, né?
Ele ignorou a provocação e o diálogo continuou:
— Então você viu?
— Não. Eu fui embora com o Tuta, o Bó. O Dé e a Emilinha ficaram mais um pouco. Eu soube que ela morreu afogada dois dias depois.
— Afogada?
— Sim. Coitada! O Dé tava lá.
— Ele viu ela morrendo afogada?
— Bom… Acho que não. Ele disse que mergulhou e quando saiu da água não viu mais ela. Ficou lá gritando por ela, desesperado.
— Oxe! Quem te contou isso, Maria?
Depois dessa pergunta, a tensão aumentou:
— Ele estava lá! A história está em todos os jornais locais! Ai, Naldo! O meu ônibus já deve estar vindo. Foi legal te conhecer e tal, mas eu só quero esquecer essa história um pouco, colocar a cabeça no lugar…
— Eu entendo, minha flor… Mas essa é a versão que te contaram. Eu também estava lá.
— O quê?! Como assim?! Ninguém te viu lá! Para de mentir!
Os minutos seguintes pareceram intermináveis como o primeiro dia, principalmente porque o bendito ônibus nunca chegava. Então, Eguinaldo contou a sua versão da história. “A versão verdadeira da história”, nas palavras dele:
— Eu tirei o dia de folga e cheguei antes de todo mundo, bem cedo, para passar tempo contigo, sabe? Levei meu facão para caçar a tal cobra se ela aparecesse. Nadei um pouco e parei para mijar atrás do umbuzeiro que tem no pé do morro. Comi uns umbu maduro e subi num galho baixo pra descansar um pouco e esperar vocês. Acordei com as risada da falecida, que ela falava pouco e baixinho, mas ria alto que nem um Acauã. Eu consegui ver os dois de longe, mas eles não me viram. Aí o Dé foi dar um mergulho e bem na hora apareceu a cobra.
— A cobra de veado?
— É… Mas não era esse cobrinha mixuruca que tão botando nos livro não, com uns chifrinho de nada… Era um bicho grande da molesta! Parecendo uma jiboiona, com o dobro do tamanho e uns chifre de botar medo mesmo… Veio descendo pelos mato da outra margem do açude, deu o bote e cravou os dente na boca da Emilinha, pra ela não gritar, coitada… E sumiu com ela no fundo da lama… Eu fiquei na árvore, estatelado, sem poder fazer nada. Desde aquele dia não tive coragem de falar contigo, até agora.
Ela pensou em um monte de coisas ao mesmo tempo, mas só disse:
— Eu… Eu… Meu ônibus chegou. Preciso ir.
Naldo completou:
— Acredite se quiser, Maria. Eu estava lá.




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