Esta não é mais uma história sobre o folclore brasileiro que todos conhecem. O protagonista não é o Curupira ou a Cuca ou o Saci ou o Boto. É o Velho Foiceiro, uma antiga história do Folclore de Laranjal, Baixada Fluminense. Ouvi minha esposa Djanira contando-a ao meu filho João Paulo na varanda da casa. Ela gostava de ler para o menino histórias de Monteiro Lobato e Sir Arthur Conan Doyle, ao som das Rapsódias Húngaras de Lizt. As duas mais recentes tinham sido “Hans Staden” e “Emília no País da Gramática”. Desse ambiente, efervesciam a curiosidade e as ideias do menino. E eu ia ouvindo de mansinho, fingindo que dormia, na minha cadeira de balanço, à sombra do pé de manga. Foi mais ou menos assim:
— Mãe, posso pedir uma história diferente hoje?
— Claro, meu filho! Quer ler o quê? – respondeu Djanira, com um prazer em contar histórias que só a Dona Benta tinha — Quer uma do Sherlock Holmes?
— Não… Conta aquela história do bairro Sete Foiçadas…
— Nossa, João! Essa é forte, é medonha. Tem certeza?
— Por favor, mãe!
Djanira olhou pra mim como se procurasse consentimento. Vi com com o olho entreaberto e reagi como se não tivesse escutado. Aí a Dona Benta misturou-se à Tia Anastácia, trouxe bolo de cenoura e café e começou a ensinar sobre o folclore local:
— Era uma noite chuvosa de sábado, 07 de julho. Não fazia frio. Pelo contrário, estava era bem abafado. Pouca gente nas ruas. Os carros de som com propagandas, as motos barulhentas e as crianças que brincavam nas ruas, todos silenciaram ao som suave da chuva que descia pelos morros, trazendo o barro vermelho característico do solo da cidade…
João Paulo ouvia curioso. A Rapsódia número dois ao fundo, tocando baixinho, evocava um desenho do picapau, que logo sumiu quando a mãe chegou na parte da palafita:
— O velho homem, de quem muitos falam, morava na casa mais alta do morro da Baiana, numa palafita de madeira antiga, elevada do solo sobre troncos fortes, para corrigir o declive do terreno, com telhado de cerâmica sobre uma estrutura trançada de toras finas e cordas…
“Engraçado” – pensei –. Em Queimados ouvi essa mesma história, dizendo que o velho morava em um trailler… A mãe continuou massageando o ouvido entusiasmado do garoto:
— Ninguém sabe o porquê do nome do morro, mas todos dizem que a casa do velho era isolada e ninguém mexia com ele. Raramente saía e tinha hábitos noturnos. O vizinho dele, Seu Vitorino, amigo do Seu Devanir do Milho, era o que morava mais próximo…
— Seu Vitorino é o viúvo que criava cavalos, mãe?
— Esse mesmo. Um dia ele contou um cavalo a menos e resolveu ir até o velho da casa alta. Foi tudo rápido como um relâmpago! Chamou o dia inteiro, sem resposta. Na noite chuvosa, pegou seu velho revólver na gaveta do guarda-roupa e voltou à palafita: “Aparece, velho ladrão!”. Foi até a porta de trás, na encosta. Trovejava tanto, que poucos ouviram o tiro que Seu Vitorino disparou ao alto.
— E o que aconteceu depois?! – Perguntou João, no auge do interesse.
A mãe sorriu e mudou a cara, crescendo sobre ele, como um monstro:
— Aconteceu que o Velho Foiceiro estava bem atrás dele. Era pequeno, tinha um olho castanho e o outro preto. Usava uma roupa estranha, como uma batina preta e surrada, e um chapéu redondo da mesma cor, com uma fita azul-escura em volta. Magro como bambu, mas tinha uma foice enorme na mão esquerda. E ceifou a vida de Vitorino com sete golpes! Em seguida, um raio matou o velho, como se fosse a justiça de Deus contra a foice!
Um silêncio com cheiro de satisfação e medo tomou o lugar da narrativa. Sétimo dia, do sétimo mês do ano, sete foiçadas, o apelido macabro do bairro. Coincidência? Ainda hoje as pessoas que passam por lá olham para cima, procurando as ruínas da velha casa. Dizem que no dia 07 de julho, o Velho Foiceiro volta para assombrar o bairro, montando o cavalo que ninguém encontrou…
— Mãe, que dia é hoje?
— Hoje? Deixa eu ver… É dia 07, meu filho.
— DE JULHO?!
— Não, não… Julho já passou.





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