A palavra “quem” e a sala de aula



O título soa meio estranho, mas vou explicá-lo. É que o “quem” integra, juntamente com que, qual, o que, como, onde, quanto e variações, o rol das chamadas “interrogativas-QU” (lê-se “interrogativas quê-u”), no inglês, “wh-phrases” (sintagmas do tipo wh, que começam com wh — when, what, where, whose…), verdadeiro e vasto campo de pesquisa científica nas áreas de sintaxe e psiconeurolinguística.

E o que isso tem a ver com a sala de aula? Por enquanto, pouco. Há, no entanto, verdadeiro esforço no sentido de difundir o que vem sendo feito pela ciência no Brasil e principalmente na direção de responder à pergunta: “Como a ciência pode ajudar a educação?”. Há também laboratórios e grupos que possuem linha de pesquisa dedicada a essa temática, como o GEPEX (Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguística Teórica e Experimental – UFF), com a linha de pesquisa “Linguística e Ensino” e diversas investigações conduzidas por professores como Eduardo Kenedy.

Ao longo de mais de uma década na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tive o privilégio de estudar com Professores e Pesquisadores que por sua vez haviam estudado com grandes nomes da linguística (ciência da linguagem) brasileira e internacional (Mattoso Câmara Jr., Noam Chomsky e outros). Sob orientação daqueles, publiquei artigos de divulgação como este aqui, na Revista Roseta. Alguns desses profissionais fazem parte da Rede Ciência para a Educação, responsável por um dos maiores esforços para responder à pergunta feita no parágrafo anterior: os Professores Marcus Maia e Aniela França, por exemplo.

Desde a Iniciação Científica até o Mestrado e o Doutorado (e agora um possível Pós-Doutorado), procurei estudar e compreender como certos tipos de estruturas sintáticas são processados na mente/cérebro. Um deles é o grupo das interrogativas-QU a que me referi inicialmente. E, como sempre conciliei pesquisa com ensino e extensão (três pilares que são — e devem ser — a base da universidade pública gratuita e de qualidade), aqui está o elo para sua compreensão do título: a palavra “quem” e outras interrogativas-QU fazem parte do dia a dia escolar, sem que muitos percebam.

Um exemplo simples de entender é a assimetria existente entre as funções de sujeito e de objeto em frases como (1) a seguir:

(1) a. Quem encontrou o professor em sala? / b. Quem o professor encontrou em sala?

Olhando de perto e fazendo uma análise sintática convencional, diremos que o termo “Quem” é sujeito na frase (1a) e objeto na frase (1b). Isso porque esse pronome interrogativo em (1a) pratica a ação do verbo “encontrou”, estabelece com ele concordância na terceira pessoa do singular, vem à esquerda do verbo — posição canônica, típica do sujeito no português brasileiro — e não vem preposicionado. Já na segunda oração temos um sujeito “o professor” que pratica a ação do verbo “encontrou” e o sintagma “Quem” é paciente, representa alguém que é encontrado, por isso é objeto direto do verbo e apenas foi deslocado de sua posição original (após o verbo) para o início da sentença.

A essse repeito, longa tradição de pesquisa em sintaxe e psicolinguística experimental, notadamente feita no Brasil por pesquisadores como os do LAPEX (Laboratório de Psicolinguística Experimental), tem demonstrado que há uma assimetria entre as funções de sujeito e de objeto em frases como (1), no sentido de que estruturas com função de sujeito (1a) são muito mais fáceis de processar do que as de objeto (1b). Isso, porém, não é unanimidade — como nada na ciência deveria ser, aliás. Existem relevantes pesquisas na área de neurociência da linguagem, conduzidas pelas Professora Aniela França, por exemplo, que revelaram padrões distintos. E mais: a depender da técnica experimental utilizada (priming, leitura automonitorada, rastreamento ocular, eletroencefalografia, FMRi etc.), os resultados podem variar. Daí que têm sido feitas tentativas de acoplamento entre diferentes técnicas, para estudar vários efeitos simultâneos do mesmo estímulo apresentado ao sujeito em tempo real, o que ainda é um desafio.

Um caminho para solucionar esse desafio é a reaproximação com a sala de aula. Entender como estudantes processam frases em diferentes gêneros textuais pode abrir novos flancos para a pesquisa brasileira, potencializar a capacidade de leitura, compreensão e interpretação textual, aproximar as universidades da “linha de frente” da educação básica, que é a sala de aula, ajudar a descobrir novos talentos para a pesquisa científica no Brasil, entre outros resultados positivos que vão muito além dos indicadores.

Em última análise, palavras como “Quem” na frase dada, se submetidas a uma leitura por estudantes da rede pública, podem nos ajudar a compreender tópicos muito específicos, tais quais a distância estrutural entre um elemento e a posição de onde foi deslocado, a influência de elementos intervenientes entre sujeito e verbo no processamento de sentenças, o chamado “Efeito da Lacuna Preenchida na posição de sujeito“, termo que eu próprio difundi no país, como empréstimo da Active Filler Strategy, estratégia sobre a qual você pode saber mais lendo o excelente livro organizado por Marcus Maia e Ingrid Finger, “Processamento da Linguagem”. Além disso, mapear as principais dificuldades dos alunos em leitura/interpretação de frases com sintagmas deslocados, entender as diferenças entre o processamento de frases e textos por alunos com deficiência e os demais alunos, entre outras possibilidades que preencherão importantes lacunas nesse enorme work in progress, nessa seara grande, cujos ceifeiros ainda são pouqíssimos…

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