Coluna Vamos sambar?
Tudo ou nada (parte 1)
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29/01/2026 06h00
Por: Fernando Lúcio de Oliveira

Frio, raiva, culpa, desejo e temor. Esse era o misto de sensações que invadiam minha mente no momento em que me vi toda ensanguentada, no chão do quarto, luzes e sons vindos das ruas invadindo o ambiente. A história de como cheguei aqui é pouco provável. Mesmo assim, hei de contá-la.

Era uma noite festiva do feriado de Carnaval carioca. A Beija-Flor de Nilópolis encantou a todos com um enredo sobre missões jesuíticas no Rio Grande do Sul e saiu vitoriosa. Fernando, que eu havia conhecido na noite anterior, me ligou, convidando-me para sair de novo:

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- Oi, Carla! Tudo bem?

- Oi, Nando! Tudo bem. E você?

- Eu, Octávio e Lívia vamos curtir a Festa da Vitória na quadra da Beija-Flor. Quer ir com a gente?

- Claro, respondi, sabendo que a noite era promissora…

Eu já havia ficado com Fernando e Lívia, minha amiga, tinha ficado com Octávio. Sabia que era todo mundo solteiro e livre e sempre me precavia. Levava na bolsa, além do batom matte, brilho labial, rímel e outras coisas de mulher, camisinhas, lubrificante íntimo, meu celular, um spray de pimenta e uma pequena pistola Taurus, para minha defesa. Não ficava dizendo por aí que fazia krav-maga e tinha porte de arma. Somente minha amiga Lívia sabia.

O motorista de aplicativo veio me buscar às 19h em ponto. Às 19:30h eu já estava na porta da quadra, usando um vestidinho provocante e um espartilho vermelho de cetim por baixo. O primeiro a chegar, depois de mim, foi Fernando, sempre muito pontual. Cumprimentou-me com três beijinhos no rosto. O terceiro pegou no cantinho da boca. Sorriu. Sorri de volta. Ele estava particularmente charmoso, com uma camisa de três botões falsos na gola vê, mostrando parte do peito musculoso, a barba feita, um cheiro gostoso de menta e cravo, muito excitante, um perfume bom, masculino, suave e crítico, mas não muito comum (L’eau par Kenzo, talvez?). Logo depois chegaram Octávio e Lívia, já de mãos dadas. O apelido do Octávio era “Demônio”. O pessoal achava que era por causa dos pecados cometidos por ele nos carnavais passados. Na verdade, Lívia me contou uma vez que era porque ele parecia com o Demônio da Tazmânia, dos desenhos da Looney Tunes. De um jeito ou de outro, eu achava engraçado (...).

*Continua na próxima semana...