Coluna Tudo ou nada mesmo?
Tudo ou nada (parte final)
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12/02/2026 06h00
Por: Fernando Lúcio de Oliveira

Depois do champanhe, da cerveja, do energético e muito samba e beijo na boca, Octávio e Lívia ainda tinham pique e convidavam para mais. Leomir pagou a conta generosamente e disse que tinha um compromisso. Ia viajar no dia seguinte para a Bahia. Nunca mais tive notícia dele depois disso. A mesa se reorganizou, com os casais originais: eu e Fernando, Lívia e Octávio. Octávio pediu um Uber Black e ficamos esperando.

- Para onde vamos? – Perguntei, meio ingênua, meio sonsa.

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- Para um lugar especial – respondeu o Demônio –, descansar ou… nos divertir mais...

Lívia sorriu pra mim e disse:

- Eu já fui antes, amiga. Você vai adorar…

- É o Carícia? – Perguntei, curiosa.

- Não, não é o Carícia ainda, bebê – respondeu Octávio, com ar de quem tem muita expertise no assunto –, é a melhor suíte de um motel que eu já fui e do qual sou cliente VIP…

- Parece interessante… – disse eu, convencida.

- Você vai ver… – completou minha amiga.

Chegando lá, tudo preparado. Flores, mais champanhe, uma hidromassagem incrível, um frigobar repleto de coisas interessantes, wi-fi, TV, ar-condicionado…

- Alguém está em lua de mel? – Zoei.

- Octávio é o mestre dos detalhes – brincou Fernando.

Tudo foi acontecendo muito rápido. Relaxamos os quatro. Bebi uma água mineral para dar uma “limpada” no organismo. Tomei um banho quente com Fernando e nos beijamos muito. Lívia fez o mesmo com Octávio em seguida. Fomos todos relaxar na banheira. Antes disso, por um instante, hesitei. Não estaríamos indo longe demais? Tudo estava muito acelerado. Tudo bem que era Carnaval, mas… Nós quatro numa suíte? Eu não tinha muita certeza se queria fazer aquilo naquele momento, embora curiosamente era o que eu queria desde o início, porque desejava o Fernando. Eu o queria dentro de mim, queria senti-lo intensamente. Por outro lado, não queria me arrepender depois. No meio dessa confusão mental momentânea, minha amiga sentou ao meu lado na cama, segurou a minha mão e disse:

- Ei! Relaxa! Eu estou aqui ao seu lado, não estou?

- Sim, eu sei – respondi –. É que… Não sei… Eu quero e não quero...

O diálogo continuou com a sinceridade típica de Lívia:

- Amiga, você está agindo como uma adolescente virgem. Não veio até aqui? Você é livre. Divirta-se!

- É mesmo, né?

- É carnaval! É tudo ou nada!

Aquela frase ecoou na minha mente por um instante. Ela me convenceu. Muito persuasiva a Lívia, sempre conseguia me convencer, mas algo me dizia que aquela frase mudaria tudo naquela noite.

Lívia tomou a iniciativa, ficou de joelhos e começou a dar prazer a Octávio. Eu vi a minha amiga fazer aquilo com tanto desprendimento que fiz o mesmo com meu parceiro. “É carnaval! É tudo ou nada!”. Olhei para Fernando e, mantendo contato visual, fiquei de joelhos e vi os olhos dele virarem enquanto suspirava. Naquela banheira eu explorei com Fernando o máximo da paixão e da intimidade que uma mulher pode sentir. Eu e ele. Não trocamos ninguém por ninguém – embora o Demônio quisesse muito – nem ultrapassamos nenhum limite não consentido, mas eu fui livre com meu parceiro enquanto a noite durou.

Já amanhecendo, estávamos satisfeitos. Abri o frigobar com fome, furei uma lata de leite condensado e comecei a chupar pelo buraquinho e engolir aquele líquido cremoso e doce que saía lentamente pelo furo. Fernando me olhava nos olhos, admirado, e sorria sem graça, lembrando-se da noite anterior…

-Gosta de me provocar, né, safada?

-Adoro! Leite condensado é gostoso, mas… eu prefiro...

-Você é incrível, menina!

Lívia e Octávio já tinham ido, aparentemente. Devem ter saído quando eu e Fernando cochilamos. As mensagens no celular confirmavam: “Saímos antes, depois explico. Não se preocupem, que está tudo pago. Podem curtir”. Tomei um banho mais calmo, sozinha. Depois liguei a TV e fui passando os canais enquanto Fernando estava no banheiro. Parei num canal de filmes. Não filmes eróticos, que já tínhamos visto na noite anterior, mas clássicos. Estava passando Kill Bill, na altura da famosa cena em preto e branco em que Beatrix luta com espadas contra diversos inimigos. Enquanto o filme seguia, olhei para o móvel ao lado da cabeceira da cama e vi a carteira de Fernando. Curiosa, dei uma olhada. Entre documentos e dinheiro estava uma foto dele com a esposa e a filha.

Ele saiu do banho de roupão e percebeu que o clima havia mudado. Daí por diante aquela frase não parou de queimar no meu cérebro: “É carnaval! É tudo ou nada!”.

- Você é casado, Nando.

- O quê? E daí? Como sabe disso?

- Você é casado! E não me disse nada!

- Mexeu nas minhas coisas, Carla?

- Não interessa!

- Claro que interessa! Eu não mexi na sua bolsa desde que nos conhecemos. São suas coisas! Eu jamais mexeria nelas!

- Que importa como eu soube? Você mentiu pra mim! Eu disse que jamais me envolveria com um homem casado!

- Carla, calma… Vamos conversar…

- Conversar? Eu estou muito chateada! Eu tô puta pra caralho!

- Eu me apaixonei por você, porra! Queria que eu dissesse a verdade? É carnaval!

- Essa era minha única regra, Fernando. E você quebrou! Puta que pariu!

- E daí? Que diferença faz agora? Se não quiser me ver novamente, ok! Mas não vou negar que adorei essa noite! E você gostou também que eu sei! Até agora há pouco estava falando sobre como foi bom ontem, que gosta de…

- Chega! Não fala mais nada! Eu não tô acreditando… Te disse, na noite anterior à da quadra, que não saio com homem casado! Não quero mulher de ninguém me enchendo o saco, não quero me sentir culpada! Você cagou para o que eu disse! Nem usa aliança! Como eu ia desconfiar? Meu Deus! O Demônio sabia disso?

Mais rápido que a morte do homem no avião no poema de Drummond, comecei a juntar minhas coisas na bolsa, sem saber o que fazer ou pensar. Então, Fernando me pegou pelo ombro e pediu para eu me acalmar. Ao reagir bruscamente, machuquei o pulso dele e ele veio ao meu encontro. Então, tirei da bolsa o spray de pimenta e pulverizei no olho dele. Ele, com raiva e com dor, começou a me xingar. Saquei minha pistola e atirei três vezes contra o peito de Fernando. Ele deu dois passos trôpegos para trás e caiu deitado sobre o tapete, olhando para o teto sem entender, enquanto uma bolha de sangue ia tingindo aos poucos o roupão branco do motel.

De volta ao meu juízo, larguei a arma sobre a cama, assustada, sentei ao seu lado, segurei sua mão e pude ver a vida saindo aos poucos de seus olhos castanho-escuros. Antes disso ainda pude ouvi-lo sussurar aquela maldita frase:

- É tudo ou nada. Me pe… Me pfhuuuaaa…

Antes de pedir perdão, uma bolha de sangue explodiu de sua boca em minha cara e ele expirou.