O sol ainda brilha. O ano é 2225. A manhã decanta a poeira levantada pelos motores das aeronaves de vários portes, que preenchem o espaço aéreo da cidade de Purple Rain. Nuvens renitentes lutam no céu contra o calor de 55º das ruas, onde um cheiro ferroso permanece entranhado no ar. São flashes de uma nova civilização que precisou adaptar-se às chamadas Guerras das Máquinas ou Grandes Guerras, que começaram vinte anos antes e vinham adquirindo proporções terríveis. Até então, o mundo não acreditava que um dia as máquinas se rebelariam contra os seres humanos, mas aconteceu. E foi tão sutil, que muitos não perceberam.
Era uma manhã fria de agosto e eu estava usando o meu Palmcomp, sistema descendente dos softwares do tipo Android, que projeta, por meio de chip subcutâneo, uma tela interativa na palma da mão. Esse sistema passou a ser o mais vendido por décadas, desde que a Freedom comprou o Google em 2190. Enquanto trabalhava no texto da minha coluna no jornal Purple News, sobrevivente das guerras infiltrado na Freedom, inúmeras mensagens em vídeo chegavam de outros humanos sobre a expansão do domínio dos chatterbots apelidados de “s-talkers”. Uma delas, lembro-me bem de quase fechar o punho para não ver, dizia: “Félix, a mensagem chegou e eu não resisti. Abri-a ciente do risco, mas não imaginava o que veria. Foi perturbador! Quando acordei, estava na banheira, com água e sangue até o pescoço, fraco e atormentado por aqueles demônios em 3D criados por inteligência artificial, a mando dos s-talkers… Quando vir isto, estarei morto. Sinto muito, amigo”.
A mensagem terminava com gritos do meu melhor amigo, Joshua, e uma senha para acesso à sua pasta compartilhada na Palmcloud. Ela estava repleta de diálogos, mensagens, vídeos, provas de todo tipo. Eu sabia que tinha pouco tempo, porque meu bloqueador de mensagens estava começando a apresentar falhas. Logo viriam atrás de mim. Liguei para meu chefe, Bruno Cozendey, editor do Purple News e avisei-o do perigo. Ninguém supôs esse perigo quando o Google foi vendido e não deixava de ser uma ironia macabra o nome da compradora remeter a algo como liberdade, quando esse era o bem mais precioso que ela tirava dos homens. O cheiro de ferro no ar era do combustível usado nas naves: sangue humano. Dos humanos da chamada “Down Purple”, região mais pobre de Purple Rain. Só quem se aliou ao inimigo desde o início das guerras pode andar livremente nas ruas, portar armas de confusão neural e pilotar naves, consentindo a morte de milhares de inocentes todos os dias.
A noite veio e, conforme a adrenalina aumentava, os sensores dos s-talkers começavam a projetar aberrações de todos os tipos para me perturbar. Eu precisava baixar os arquivos de Joshua, antes de meu cérebro entrar em colapso com as inúmeras mensagens que não paravam de chegar. As trancas nas janelas mantinham o mau cheio e o calor do lado de fora. Dentro do escritório, um climatizador antigo, de antes das guerras, alimentado por uma bateria de micronave, mantinha o ambiente habitável.
Então, uma fire message chegou. Eu precisava abri-la, se não minha mão esquentaria até enviar sinais de dor excruciante ao meu cérebro. Era um s-talker:
- Olá, Félix Zaidan!
(Continua na próxima postagem...)