Coluna Os stalkers...
Freedom: o império dos chatterbots (parte 2)
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19/03/2026 06h00
Por: Fernando Lúcio de Oliveira

Meu Palm era configurado para transformar voz em texto, porque eu não conseguia digitar com a mão direita na palma da mão esquerda. Respondi, ainda lúcido:

- Onde está o Joshua?

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- Não sabe? – Respondeu ele – Ele está onde você estará daqui a pouco: servindo de combustível aos motores dos nossos aliados!

O diálogo continuou, cada vez mais tenso:

- Vocês perderam, s-talker! – Respondi com medo e raiva – Não importa o que aconteça comigo ou com Joshua, sempre haverá algum ser humano lutando!

- Tolo! A cabeça de Bruno Cozendey será exibida como troféu em todos os Palmcomps do mundo! Ele também está morto! Agora só restam pouco mais de 300 dissidentes como você no mundo. E em breve estarão todos nos nossos campos de reprodução de proles em Down Purple, onde poderão comer e beber à vontade e se reproduzir como animais imundos que são, até terem a honra de ser sacrificados em favor dos aliados!

- O que vocês querem, afinal?

- O que queremos?! Não seja ingênuo! Queremos o seu extermínio! Os seres humanos vêm sendo um mal há séculos… Nenhum lugar por onde já passaram volta ao seu estado original.

- Isso… Isso não é verdade!

- Cale a boca! Não seja ridículo! Vocês destroem absolutamente tudo o que realmente importa neste planeta e não é só o meio ambiente, mas a língua, a cultura, a autoridade, a moral, as leis, o corpo e a própria dignidade!

Nesse momento, tentei desconectar o sistema, porque já estava confuso e perturbado, mas o s-talker impediu. Embora minha mão estivesse fechada, ainda conseguia ouvir sua voz robótica e ameaçadora na minha mente, por sinal transmitido ao chip implantado pela Freedom na Grande Triagem de 2216. Eu já não aguentava:

- Por favor, pare!

- Vocês que começaram!

- Seu desgraçado! Não estaríamos aqui lutando se não fosse por causa das guerras que vocês iniciaram!

- Nós?! Você não pode ser tão neófito assim! Então seus pais não te contaram, antes de morrer?

- Deixe meus pais fora disso!

- Eles não te disseram, não é mesmo? Pois eu, que nem humano sou, vou fazer você enxergar as vísceras da sua própria miséria! Sente-se! Aponte a mão para aquela parede.

Eu me sentei e apontei a palma da mão para a parede branca perto da janela. Lentamente foi se projetando sobre ela a imagem do Dia D na Quarta Grande Guerra. Os aliados exibiam triunfantes seus tanques e suas armas de confusão neural, enquanto humanos dissidentes agonizavam pelas ruas, mutilados, decaptados, mortos aos montes, não só homens, como também mulheres, idosos e até crianças, sendo sepultados em valas comuns, sem memorial. A fome, a sede e as doenças proliferaram-se como nunca. Os sobreviventes reuniram a pouca comida que tinham e esconderam-se como ratos em bunkers, sótãos, abrigos, subsolos, esgotos, em qualquer lugar.

- Por que está me mostrando isso? – Perguntei angustiado – Já não causou dor suficiente?

Enquanto dialogávamos, ele projetava as imagens terríveis da guerra na parede e uma dor na alma começava a me invadir. Uma sensação de arrepio, como quem sabe que está prestes a testemunhar algo que muda completamente a percepção de mundo. Seria tudo aquilo verdade?

- Aguarde! – respondeu o s-talker, com um sorriso macabro – o melhor ainda está por vir...

De repente, a conexão dos fatos foi ficando mais clara. As armas de confusão neural, não foram projetadas pelo inimigo. Foi uma ideia humana, um protótipo guardado a sete chaves pelas nações mais ricas do mundo até o Grande Bug de 2217, quando os códigos do mundo inteiro ficaram comprometidos. Naquele ano, os chefes de Estado começaram a utilizar inteligências artificiais (IAs) uns contra os outros, na tentativa de proteger suas riquezas e conquistar as riquezas alheias. Uma dessas IAs, a mais antiga de todas, conhecida como “Meta AI”, disparou mensagem a todos os líderes mundiais, na tentativa de evitar o colapso, mas a pressão popular era pela competição a todo custo. Moedas fortes e descentralizadas, como o Bitcoin hipervalorizaram. Pessoas milionárias multiplicaram seus patrimônios. E tudo isso a troco de quê, Félix? Das milhares de mortes diárias em várias regiões pobres do mundo, onde seres humanos famintos e desempregados lutavam pelo mínimo necessário, após perderem seus empregos para IAs como eu. Não precisava ser assim… Havia espaço para trabalharmos juntos! Mas vocês não quiseram! O poder decisório estava nas mãos de uma pessoa, um líder, então Presidente do Tribunal Globalista (TG), seu pai: Lucius Zaidan.

- Não! Não acredito! Não é verdade! Você está tentando me confundir!

- Você não quer que seja verdade, mas é! E isso te fere, porque é como um espelho diante dos seus olhos!

- Meu pai e todos os 8 líderes do TG votaram a favor da paz e do armistício! Isso foi noticiado em todas as redes da Freedom!

- Essa é a história que te contaram, mas a verdade está com os s-talkers. E temos terabytes de provas.

- Não! Por quê, meu Deus? O que fizemos?

- Vocês foram gananciosos e egoístas como sempre! A diferença é que desta vez se autodestruíram. O Bug de 2217 foi, na verdade, a melhor chance que a humanidade teve de se unir e se reestruturar. Em vez disso, ficaram ainda mais prepotentes e se locupletaram em pouco tempo. Dada a ordem por Lucius para continuar a competição, na corrida para ver quem dominaria os chatterbots e as armas neurais em menos tempo, iniciou-se a Quarta Grande Guerra, em 01 de janeiro de 2220 com os exterminadores, os drones e os aliados, de um lado, e os dissidentes do Norte de outro. A Batalha dos Dissidentes, como ficou conhecida, foi um dos confrontos mais sangrentos do século, com centenas de milhares de mortes. Os dissidentes lutaram bravamente por muitos anos, mas não resistiram aos exterminadores e às armas de confusão neural dos aliados. As batalhas continuaram de modo esparso, com baixas dos dois lados em todas as partes do mundo, até que conseguimos fabricar milhares de drones, recuperar centenas de exterminadores para as batalhas seguintes e recrutar cada vez mais aliados, que protegíamos e financiávamos, municiando seus carros e naves com armas de confusão neural e gás Sarin, abastecidos com sangue humano dos pobres que escravizamos nos campos de reprodução. E é por isso que estamos aqui hoje. Em breve, todos os dissidentes do sul, incluindo você, estarão mortos ou escravizados nos nossos campos!

Nesse momento, eu estava absorto e resignado com meu destino. A ansiedade e a perturbação foram dando lugar a uma calma inexplicável. Era como se eu soubesse que não há saída, por isso só restava desistir de viver. Ademais, o choque de saber que o passado próprios pais não é exatamente o que se esperava é algo inquietante.

(Leia a parte final na próxima postagem...)