Uma vez era o Claudius, quase um imperador, pseudônimo pomposo, coluna ereta, voz firme, segura, bem impostada. Outra vez, o Cláudio, subalterno, mendigando atenção, com medo de tudo e de todos. Dessa alma aparentemente bipolar, vem o mote da história que vos conto.
A primeira reunião (que mais está para um encontro fortuito) ocorreu na cafeteria Trem Bão. Cláudio estava lá na parte externa, fumando seu cigarro, tomando seu café preto e puro, enquanto anotava suas ideias em um papel. Naquele dia, não estava com cara de imperador, senão de súdito mesmo. E teria passado o dia assim, não fosse o encontro inesperado.
A reportagem do Jornal Folha Regional estava entrevistando o professor, editor e escritor Lúcio Oliveira sobre um concurso literário. A risada pentassilábica e inconfundível fez Cláudio levantar a cabeça, intrigado. Ele apertava os olhos, tentando confirmar se era mesmo o amigo, mas temia parecer idiota e intrometido. Até que ouviu:
— Cláudio?
Era ele mesmo. Terno leve, camisa aberta no colarinho, um sorriso entre surpreso e feliz.
— Lúcio? Meu Deeeeeeus! Não acredito!
— Tá fazendo o que aqui, doido?
— Vim para a Feira do Livro que vai acontecer na cidade.
— Caramba, Cláudio! Que bacana! Eu sou dono de uma editora agora. E estarei nessa feira. Inclusive, estou realizando um concurso literário com premiação.
— É… Eu vi um pedaço da entrevista. Reconheci você pela risada.
Lúcio riu novamente. Do mesmo jeito que há vinte anos. Não se viam desde os tempos de universidade, mas o hiato não apagara os traços de cada um. Depois dos cumprimentos constrangidos de um reencontro inesperado, Cláudio mostrou ao amigo a boneca do livro que havia escrito e pediu mais um café para si e outro para o potencial facilitador da sua ideia. Conversaram sobre a vida e os livros. Lúcio era agora dono de uma editora de médio porte, mas com bom trânsito entre prêmios literários e listas de mais vendidos. Cláudio hesitou antes de mencionar que estava tentando publicar seu primeiro romance. Havia mandado para sete editoras. Todas recusaram. Não sabiam como encaixar aquele tipo de narrativa nos catálogos. “Muito inusitado”, diziam. “Muito fora do mercado.”
— E qual é a ideia? — perguntou Lúcio, curioso.
— É sobre um menino…. Um menino que tem o dedo vermelho. Quando ele toca nas feridas das pessoas, elas se curam. Mas o problema é que cada vez que ele cura alguém, uma ferida aparece nele.
Lúcio arregalou os olhos:
— É como o clássico de Maurice Druon?
— Sim, resguardadas as diferenças. Tistu, o menino do dedo verde, tocava nas coisas e delas brotavam plantas, flores. O mundo ficava mais verde e mais belo. Caiú, o menino do dedo vermelho, toca nas feridas das pessoas e as cura. Uma vez, ele curou um garoto que jogava bola no sopé de um morro. Somente o garoto machucado e suas amigas (ambas se chamavam Maria) o viram. Ele usava roupas brancas, feito um marinheiro. O menino curado viu uma pomba branca pousar sobre a cabeça de Caiú e, depois disso, ninguém mais teve notícia. As duas Marias juraram que o viram de novo, mas poucos acreditaram.
— Hum… Intrigante. Carregado de simbologia. E o que acontece com ele em seguida?
— Vai ter que ler o original para descobrir…
— Tudo bem. Você conseguiu minha atenção. Manda para o meu e-mail. Não prometo nada, mas quero ler. Aqui está meu cartão.
Claudius sorriu, pela primeira vez naquele dia, com brilho nos olhos. Fora, sem pretensão alguma, participar de um evento. Agora, estava prestes a ser lido por um editor capaz de dar voz às suas ideias.
Ficou olhando o amigo ir embora. A mesma sobriedade em se vestir, o andar que parecia uma marcha militar, tentando aumentar a estatura de um pequenino homem. Desviou os olhos, uns cinco segundos, para o fino plástico que envolvia o maço de cigarros, amassado sobre a mesa, dançando e desamassando a si mesmo, tremendo como um pedaço de bacon fritando na banha. Nesse momento, um flash passou por sua memória: a sala abafada de um hospital, ele com dez anos, ao lado da cama da mãe, que jazia em dores. Apertava a mão dela com força e dizia, com ingenuidade infantil:
— Se eu pudesse, mamãe, tirava sua dor pra mim.
Ela sorriu, com os olhos lacrimejando, e respondeu:
— Meu filho, só de você estar aqui e segurar minha mão, é como se minha dor fosse embora….
Cláudio nunca contou essa memória a ninguém. Nem a Lúcio, naquele dia.
Dois anos depois, “Caiú: o menino do dedo vermelho” não apenas foi publicado, como venceu o Prêmio Nacional de Literatura Inovadora. Entrou para a lista dos mais vendidos e lá ficou por 6 meses consecutivos. Cláudio e Lúcio assinaram uma parceria duradoura. O livro virou filme. Foi traduzido. Escolas discutiam o simbolismo do dedo vermelho e das feridas transferidas.
Mas o mais curioso é que o manuscrito original, guardado em cofre e que só veio à tona após muito tempo, termina com uma nota manuscrita, que não aparece em nenhuma edição:
“Durante um tempo, andei por aqui. Ninguém sabia bem de onde eu vinha. Havia feridas demais nas pessoas e meus dedos coçavam quando se aproximavam delas. Toquei muitos. Alguns nem perceberam. Outros choraram sem entender por quê. Depois, parti. Ninguém viu exatamente quando. Mas as duas meninas…. Elas me viram. E sorriram. Escrevo porque talvez, um dia, você se fira e sinta uma presença leve, sutil — um toque cálido sobre a dor. Se acontecer, não se assuste. Apenas feche os olhos. Eu ainda passo por aí.”
A crítica ainda diverge. Uns juram que a carta foi só um artifício do romance. Outros observam que a caligrafia no final não combina com a de Cláudio. Talvez um acréscimo de Lúcio, tentando dar ao livro um tom mais poético. Há quem fale de um bilhete encontrado entre as páginas do manuscrito original, dobrado em quatro, com o canto levemente manchado de vermelho.
Os significados da história ficam, claro, a critério de quem a lê.





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