— Ser ou não ser? Eis a questão!
Francisco susteve o pincel no ar e deixou que a frase ecoasse nas paredes do ateliê. A luz de Lisboa entrava oblíqua pela janela, filtrada por um céu onde os jacarandás, em flor, deixavam cair pétalas roxas como pequenas anunciações. Ele franziu o cenho.
— Não… Murmurou, pousando o pincel —. Minha batalha não é com a vida ou a morte. É com a arte e, de certa maneira, comigo mesmo…
A sala cheirava a óleo e cal. Sobre a mesa, os pigmentos repousavam como terras recém-colhidas. Ao longe, para lá dos telhados, imaginava os carvalhos-alvarinhos do Parque Florestal de Monsanto, firmes, enraizados numa paciência que ele invejava. Pensou que talvez a pintura devesse ser assim: árvore que resiste às estações e não apenas cor que brilha por um instante.
Aproximou-se do painel que trabalhava havia semanas. Ali estava uma de suas composições mais estimadas: figuras em diálogo, olhares erguidos para uma luz invisível. Tinha-lhe dado o melhor do traço, da proporção, da meditação aprendida entre Roma e Lisboa. Ainda assim, algo o inquietava.
— Falta-te respiração — disse à imagem.
E então — não saberia dizer se foi cansaço, excesso de silêncio ou desígnio mais alto — a figura central pareceu mover os lábios.
— Respiração? — Respondeu a pintura, com voz que era mais pensamento do que som —. Tu me queres viva, mas temes que eu te ultrapasse.
Francisco recuou um passo. O coração bateu-lhe feito martelo em escultura.
— Eu temo a imperfeição — Retrucou —.Temo que o traço não alcance a ideia. Que a mão traia o espírito.
A figura inclinou levemente a cabeça, gesto que ele não recordava ter pintado.
— Não és tu que me dás vida — disse ela — É a contemplação que partilhas comigo. Se me olhas como matéria, serei tinta. Se me olhas como centelha, serei chama.
O pintor passou a mão pelos cabelos. Lembrou-se dos tratados que escrevera, das defesas ardentes da dignidade da arte, da convicção de que o artista participa do ato criador. Sempre afirmara que a pintura nasce da interioridade. Agora, sua própria obra o interrogava.
— E se eu falhar? — sussurrou.
— Falharás — respondeu a imagem, serena —, mas no erro também há busca. Não lutes contra mim. Luta contigo e vence.
Um silêncio espesso caiu sobre o ateliê. Lá fora, uma rajada atravessou as ruas, agitando os jacarandás. As pétalas rodopiaram — pensamentos dispersos. No mesmo instante, uma lufada entrou pela janela aberta, atravessou a sala e derrubou um pequeno frasco de tinta azul, que se espalhou pelo chão em mancha súbita.
Francisco voltou-se, alarmado. Quando tornou a encarar o painel, a pintura estava imóvel, exatamente como a deixara: lábios cerrados, gesto fixo, luz suspensa.
Aproximou-se devagar. Tocou a superfície seca. Nada se movera. Olhou para a tinta derramada, depois para a janela ainda vibrando. Sorriu.
Foi o vento?

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