Eu era bom em me esconder em lugares altos, principalmente as árvores. Ele, o contrário: embaixo dos carros, da Kombi do Seu Ronaldo, atrás dos muros. Já o Careca gostava dos lugares óbvios, como atrás do poste onde se fazia a contagem antes de procurar. Quando a pessoa abria os olhos, ele era mais rápido. “1, 2 , 3 Careca!”. E se safava. As ruas não ficavam vazias. A melhor calçada para jogar gude era a do meu pai, porque não tinha cimento como as outras, não tinha declive, não era irregular. A bola de gude corria que era uma beleza! E dava para fazer búlica. A garotada jogava o dia inteiro. Papai deixava. Só não gostava de quando brincavam de golzão no muro e a bola batia na janela ou no portão, fazendo barulho. Era uma correria. “Corre, seu Félix vem aí!”. “Ele vai furar sua bola com o canivete”. E sempre sobrava pra mim.
Fiquei aquela tarde toda de terça-feira (ou era segunda?) pensando em como eu poderia ter dormido no pé de tamarindo e acordado no quarto da minha mãe. Ela chegou da casa da tia Maria com uns presentes trazidos de Caruaru, Pernambuco. Minha tia fora visitar uns parentes no Alto do Moura, comer bode guisado e rapadura batida na palha. Passou também na Feira da Sulanca e voltou com um monte de artesanato, bonequinhos de barro do Mestre Vitalino, umbu do umbuzeiro do sítio da minha vó, cajuína e doces típicos.
– Mãe, a senhora trouxe mariola e nego bom?
Eram dois docinhos feitos de banana com açúcar, parecidos com as bananadas vendidas pelos trens do Rio. Não a bananada tijolão, mas aquela bananada açucarada e menorzinha.
– Calma, meu filho! Deixa eu chegar em casa primeiro… – Dizia minha mãe, um pouco afobada, um pouco risonha da minha alegria contagiante. E eu a enchia de beijos. Criança gosta de doce. Mãe quer ver a alegria do filho. Não existe momento mais preservado na memória de um filho que esse simples instante de harmonia.
– Come pouco, que meu fi ainda vai almoçar…
– Tá bom.
E comia até passar mal. Almoçava tarde. Minha mãe raramente me batia. Quem ficava de olho eram meus irmãos mais velhos. Depois do almoço, fui brincar no quintal, onde as galinhas ciscavam e, ao mesmo tempo em que procuravam minhocas, evitavam o crescimento do mato. Meu pai dormia na sua velha cadeira de balanço vermelha. Não era das que se compram hoje em dia, gourmetizadas e caras. Era de ferro, um ferro resistente, soldado, em uma estrutura única, montada à mão e trabalhada com um fio macarrão de uma espécie de náilon, do assento ao respaldo, passando pelos braços.
– Fernando! Já vai pra rua?
A voz forte do meu pai me deixava pasmo, porque eu nunca sabia quando ele estava realmente dormindo.
– Não, pai, vou brincar no quintal.
– Hum…
– Pai, posso perguntar uma coisa ao senhor?
– Fale, meu filho.
– O senhor me colocou na cama ontem?
– Não. Deve ter sido sua mãe.
Papai não estendia a conversa. Era sempre monossilábico, monofrásico, um olhar bastava. Quando ria, ria muito. Quando chorava ninguém via. Se cansado, ia para a cadeira de balanço, que ficava sempre no mesmo lugar, na calçada lateral da casa, à sombra do pé de tamarindo. “Deixe de besteira, menino”. Era o que ele diria se eu perguntasse sobre ser possível eu ter me teletransportado da árvore à cama. Mas era justamente essa ideia que não me saía da cabeça.
(Continua na próxima postagem…)

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