Ao longo dos anos, dediquei grande parte da minha vida ao estudo da língua portuguesa, da literatura e dos fenômenos da linguagem. Entre as muitas manifestações da arte verbal, poucas exerceram sobre mim tanto fascínio quanto o soneto.
Tradicionalmente associado à obra de Petrarca, o soneto tornou-se uma das estruturas mais importantes da poesia ocidental. Sua forma clássica é composta por catorze versos distribuídos em duas quadras e dois tercetos. Ao longo dos séculos, foi cultivado por grandes nomes da literatura mundial e da literatura em língua portuguesa, como Camões, Antero de Quental, Olavo Bilac e Vinicius de Moraes.
Não me coloco, evidentemente, entre os gigantes que moldaram a tradição literária do Ocidente. Menciono-os não por comparação, mas por filiação: toda nova proposta formal nasce do diálogo respeitoso com as formas e os autores que a antecederam.
Entre os sonetos brasileiros mais conhecidos encontra-se o Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes. O poema tornou-se célebre por sua reflexão sobre o amor vivido com intensidade, mesmo diante da inevitável transitoriedade da existência. A obra pode ser consultada em sua versão oficial no acervo dedicado ao autor:
Fonte:
https://www.viniciusdemoraes.com.br/br/poesia/texto/106/soneto-de-fidelidade
Como professor, escritor e linguista, sempre admirei a capacidade que as formas fixas possuem de unir disciplina técnica e liberdade criativa. Foi desse encontro entre tradição e experimentação que nasceu uma proposta poética que apresento agora ao público pela primeira vez: o Soneto Fernandino.
O Soneto Fernandino é uma forma poética autoral composta por catorze versos alexandrinos, organizados em duas quadras e dois tercetos.
Suas características fundamentais são:
Catorze versos alexandrinos – O Soneto Fernandino é composto por catorze versos, como ocorre na tradição clássica do soneto. Cada verso é um alexandrino, também chamado de verso dodecassílabo, isto é, um verso formado por doze sílabas poéticas.
Duas quadras e dois tercetos – A estrutura divide-se em quatro estrofes. As duas primeiras são quadras, ou seja, estrofes de quatro versos. As duas últimas são tercetos, isto é, estrofes de três versos.
Esquema rímico ABAB ABAB CDC DCD – Nas quadras, o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo verso rima com o quarto, formando o esquema ABAB. A segunda quadra repete a mesma estrutura. Nos tercetos, utiliza-se o esquema CDC DCD, preservando uma disposição clássica das rimas.
Segundo verso de cada quadra terminado em palavra oxítona – Uma das marcas distintivas do Soneto Fernandino é a obrigatoriedade de que o segundo verso de cada quadra termine em palavra oxítona, isto é, uma palavra cuja sílaba tônica se encontra na última sílaba, como “ficar”, “chamar”, “amor” ou “café”.
Segundo verso de cada terceto terminado em palavra oxítona – O mesmo princípio aplica-se aos tercetos. O segundo verso de cada terceto deve terminar obrigatoriamente em palavra oxítona, criando uma regularidade sonora que percorre toda a composição.
Utilização consciente dos recursos tradicionais da versificação portuguesa – O Soneto Fernandino emprega técnicas clássicas da poesia em língua portuguesa, entre as quais se destacam:
- Escansão: procedimento utilizado para contar as sílabas poéticas do verso;
- Sinalefa: união da vogal final de uma palavra com a vogal inicial da palavra seguinte durante a leitura poética;
- Elisão: supressão ou fusão de sons vocálicos para adequação métrica;
- Cesura: pausa interna responsável pela organização rítmica do verso.
A principal marca distintiva da forma é a presença sistemática da terminação oxítona nos segundos versos das estrofes, funcionando como uma assinatura estrutural da composição.
No Soneto Fernandino, os versos são construídos sobre uma arquitetura alexandrina de doze sílabas poéticas. A leitura organiza-se por cesuras regulares, distribuídas ao longo do verso, produzindo equilíbrio rítmico e musicalidade. Em minha proposta, a estrutura métrica privilegia uma divisão regular do verso, criando uma cadência característica que contribui para a identidade sonora da forma.
Apresento a seguir o primeiro exemplar dessa forma poética.
QUANDO EU MORRER
Quando eu morrer, não façam pranto, façam festa!
E que este seja o meu legado a quem ficar:
Morre a semente e vive a vida que ela gesta
Em outro corpo, em vida outra em seu lugar…
Ergam-se as pedras! Batam palmas as florestas!
Que a natureza reconheça, a ouvir chamar
pelo meu nome a linda voz que tira desta
vida até lá e finda a dor da minha carga…
O que nenhum olho jamais viu nem em parte,
o que nenhuma mente pôde conceber,
é o que me espera pela fé. Que Deus me guarde!
Com graça e paz, perdão e amor, um dia ver-te!
Sim, quando ao céu o meu chamado ressoar,
temido anjo! Oh! Dou-te a mão e sem temer-te!
Apresento este poema não apenas como uma composição individual, mas também como o marco inaugural de uma proposta formal que pretendo desenvolver e aperfeiçoar nos próximos anos.
Assim, deixo registrado que o Soneto Fernandino foi concebido por mim, Fernando Lúcio de Oliveira, professor, escritor e linguista, autor independente da Baixada Fluminense, natural de Belford Roxo, Rio de Janeiro, Brasil.
A história da literatura é feita de continuidades e de invenções. Toda forma clássica foi, um dia, uma novidade. Toda tradição começou como experiência. É nesse espírito que apresento esta nova proposta à comunidade literária.




Comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo.
Seja o primeiro a comentar!