Hoje acordei e fiquei olhando para o teto uns cinco minutos, para o céu estrelado de adesivos fluorescentes, apagados pelo dia que me chama pela janela. É que a professora anunciou na última aula: “Sexta é o sarau. Cada um lerá algo que escreveu”. Quando a palavra “lerá” ecoou na sala, foi como um som de porta batendo. Meus colegas vibraram; eu virei pedra. Pedi para os dois dias seguintes passarem bem lentamente. Não queria que a sexta-feira chegasse, mas chegou.
Meu irmão mais velho parece que faz de tudo para me deixar ainda mais ansiosa. No café, esperou o momento certo para conseguir a atenção da nossa mãe:
— Ei, mãe! A senhora sabia que a Letícia é poeta?
Empurrei o braço dele tão forte, de repente, que o pão com manteiga saiu voando e caiu dentro da pia. Minha mãe, como sempre, brigou comigo. Que dia perfeito. E ele está apenas começando. Eu só queria que o dia acabasse logo! Então poderia voltar para o meu quarto e escrever tudo o que sinto.
O ônibus parecia arrastar-se até a escola, como quem pergunta: “tem certeza de que ensaiou tudo direitinho, Letícia?”. Meu irmão ia do meu lado, rindo e mexendo no meu celular. Quando me percebeu triste, deu-me um abraço e começou a dar dicas de oratória ou sei lá o que. Para mim, não adiantava nada. Eu não nasci para falar, nasci para escrever. Mas entendi o gesto. Era só meu irmão mais velho tentando dizer que me amava. Depois das cinco primeiras palavras dele, perdi-me pensando no vovô explicando que meu nome tinha a ver com alegria, um sentido que eu só havia descoberto nos momentos em que escrevia. Agora era diferente: precisaria mostrar a todos o que eu escrevi. E nunca havia me preparado para isso.
Primeiro eu não queria que os dias passassem. Depois eu não queria descer do ônibus. Caminhava pelos corredores como quem pisa num tablado alto demais — qualquer passo em falso e todos verão quem sou de verdade (Quem sou de verdade?). O medo de falar em público me lembrou de beber água. No bebedouro, a professora quis ajudar:
— Letícia! Tudo bem?
— Tudo bem, professora.
— Preparada para hoje? — perguntou a professora, com aquele sorriso que arregala o olho e estica a pele do pescoço.
— Sim, professora. — Respondi que sim com a cabeça e com a boca, mas meu coração pedia meu cantinho em casa.
— Que bom! A gente se vê depois do recreio, então!
Dois tempos intermináveis de história antes do recreio. O sinal toca e eu me escondo perto da jabuticabeira. O medo sussurra: “Você não é boa o suficiente”. Tento responder, mas minha voz interna é baixinha. Abro o dicionário que ganhei do vovô e procuro a palavra “timidez”: “estado de quem se retrai por insegurança”. No rodapé, alguém rabiscou décadas atrás: “Retrair também é estratégia antes do voo”. Reconheço a letra torta dele. Sorrio com uma vontade suave de acreditar.
Penso nos versos que rascunhei sobre lagartas que sonham voar. Talvez valha a pena consertar algo, refazer, mas a caneta parece pesar uma tonelada. E se rirem? E se eu gaguejar? Vovô dizia que palavras são pontes, mas não sei aonde me levarão. Sentia-me como a crisálida do conto “Borboleta”, que minha mãe leu para mim enquanto eu a ajudava com a louça de domingo. Seria a adolescência esse medo constante? No meu caso, estava apenas começando. Tomara que não.
Quando o sinal toca novamente, uma borboleta azul pousa na manga do meu uniforme e voa — na verdade, caminha — lentamente até a mão que uso para escrever. É azul como os olhos de vovô, que não herdei. Acho que não sou borboleta, sou mariposa. Vou até o banheiro e me tranco numa cabine até todo mundo ir embora. Ensaio rapidamente diante do espelho. Minhas bochechas esquentam, o estômago parece sala de aula cheia. Penso em desistir. Mas lembro de quando vovô, já com a bengala trêmula, me fez lançar um barquinho de papel no lago:
— Às vezes basta empurrar…
Vou até a sala vazia e penso: adiaram. Vou ter o fim de semana para respirar. Uma colega vem avisar que a professora não faltou. As apresentações estão acontecendo no teatrinho da escola. Só tem sessenta lugares, mas parece um teatrão de verdade. Na fila do palco, as mãos suam, o coração bate forte. A professora chama:
— Letícia, é a sua vez!
Eu travo, como um barquinho amarrado no cais. Aí a minha melhor amiga põe a mão no meu ombro, lembra que é a próxima e me empurra:
— Respire e sorria, amiga! Você consegue!
Dou um passo. Outro. O medo vem junto, mas vai ficando menor. Respiro, abro o caderno e vejo a borboleta azul, desenhada no canto da folha. Foi meu irmão que rabiscou enquanto eu dormia, escrevendo: “Vai, Letícia!”. Leio. A voz treme no início, mas vai. Falo da lagarta que se acha feia, do casulo apertado, do escuro que parece fim — até que algo por dentro se alarga e, crack! A asa se abre. Conto que o voo não é fuga: é continuação da caminhada, só que no ar. Quando termino, o silêncio dura um segundo inteiro — longo o bastante para que eu ouça o passarinho do peito bater asas. Depois, aplausos.
Desço do palco. Sinto o chão, mas não sou mais pedra: sou ponte. O sorriso do vovô vem à mente. Posso sentir seu abraço, como se ainda estivesse comigo. No caminho para casa, o vento bagunça meus cabelos. Penso que talvez alegria não seja só gargalhada espalhafatosa. Pode ser também esse sorriso quieto que inventei agora, repetindo baixinho meu nome em latim até que ele combine com quem estou me tornando.
A vida, descubro, é isso: um sarau em que a gente aprende a ler em voz alta as páginas que ainda está escrevendo.




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