A regularidade no abastecimento de água tem ajudado pequenos empreendedores a reduzir custos e organizar melhor a rotina de trabalho na Baixada Fluminense. Em Nova Iguaçu e São João de Meriti, intervenções realizadas pela concessionária Águas do Rio, da Aegea, melhoraram o fornecimento em áreas onde comerciantes precisavam adaptar suas atividades à falta d’água.
As obras incluem a instalação de um sistema de bombeamento, conhecido como booster, em Nova Iguaçu, e a implantação de aproximadamente 130 metros de nova rede em São João de Meriti. As melhorias mostram como o acesso contínuo à água tratada pode influenciar o funcionamento de pequenos negócios, especialmente daqueles que dependem diretamente do recurso para prestar serviços e atender clientes.
Quando o abastecimento apresenta interrupções frequentes, os empreendedores precisam recorrer a alternativas, como comprar água, ampliar reservatórios ou interromper temporariamente o trabalho. Essas medidas representam despesas adicionais e dificultam o planejamento financeiro, sobretudo para empresas com menor capacidade de absorver custos inesperados.
O economista Valdemar Rodrigues de Pinho Neto, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), define esse tipo de despesa como “custo de adaptação à precariedade”. Para ele, o saneamento deve ser entendido como parte da infraestrutura necessária à atividade produtiva, assim como energia elétrica, transporte e telecomunicações.
“A água é um insumo direto para uma série de atividades econômicas, como restaurantes, salões de beleza, lavanderias, oficinas e comércio de alimentos, mas também é necessária para o funcionamento regular de praticamente qualquer estabelecimento”, explica o professor.
Segundo Valdemar, a redução da necessidade de soluções alternativas representa uma economia direta para os negócios. A previsibilidade no fornecimento também permite que os responsáveis pelos estabelecimentos organizem melhor a produção e avaliem novos investimentos.
Confeiteira amplia encomendas em Nova Iguaçu
Em Nova Iguaçu, a confeiteira Evelyn Vieira dos Santos enfrentava dificuldades para cumprir os pedidos quando faltava água. Antes da melhoria no sistema de abastecimento, ela chegou a recorrer à casa de parentes para finalizar encomendas e garantir a entrega aos clientes.
“Eu fui na casa de um parente meu e consegui finalizar a encomenda lá, porque o cliente não tem nada a ver com isso. Não tinha de onde tirar água”, relata.
A situação mudou após a instalação do sistema de bombeamento pela Águas do Rio, que passou a abastecer cerca de 900 endereços no município, segundo as informações divulgadas pela concessionária.
Com maior regularidade no fornecimento, Evelyn afirma que conseguiu ampliar o volume de trabalho e diminuir os gastos que tinha para contornar a falta d’água.
“Eu fiquei até mais tranquila e agora eu pego o dobro de encomendas. Inclusive economizei muito dinheiro nessa questão, porque antes eu tinha que ficar gastando com água”, conta.
O relato evidencia como a disponibilidade de um recurso básico pode interferir diretamente na capacidade de produção de um pequeno negócio. Na confeitaria, a água é necessária para diferentes etapas da rotina, e a falta do insumo pode comprometer tanto a execução dos pedidos quanto o cumprimento dos prazos.
Nova rede beneficia comunidade em São João de Meriti
Em São João de Meriti, a implantação de uma interligação e de aproximadamente 130 metros de nova rede levou abastecimento contínuo, pela primeira vez, a mais de 80 casas e cerca de 300 moradores da comunidade localizada no bairro São Mateus.
A mudança também trouxe reflexos para a atividade profissional de Fernanda Bessa, proprietária de um salão de manicure no Pátio da Estação. Antes da intervenção, a instabilidade no fornecimento representava uma dificuldade adicional para a rotina do estabelecimento.
“Depois que a água chegou aqui, praticamente acabaram os problemas. Eu acredito que não só para mim, não só para a melhoria do meu espaço, mas para muitos que moram aqui na região”, afirma.
A experiência da empreendedora ilustra como melhorias no abastecimento podem beneficiar não apenas as residências, mas também os serviços e as atividades comerciais que dependem de condições adequadas de funcionamento.
Saneamento e produtividade
Os efeitos econômicos da infraestrutura de saneamento também aparecem em estudos nacionais. Um levantamento do Instituto Trata Brasil, elaborado em parceria com a EX Ante Consultoria Econômica, estima que a universalização dos serviços de saneamento pode gerar R$ 1,4 trilhão em benefícios econômicos e sociais entre 2021 e 2040.
Desse total, o saldo positivo projetado é de R$ 815,7 bilhões, com mais de R$ 437 bilhões associados a ganhos de produtividade.
Na avaliação de Valdemar Rodrigues de Pinho Neto, a segurança no fornecimento de água também pode influenciar decisões como comprar equipamentos, ampliar instalações, estender o horário de funcionamento ou contratar funcionários. Com menos incertezas operacionais, o empreendedor ganha condições para concentrar recursos e esforços em aspectos como preço, qualidade e atendimento.
O economista ressalta, porém, que o saneamento é apenas um dos fatores que contribuem para o desenvolvimento econômico de uma região. Transporte, segurança pública, educação, acesso ao crédito e ambiente de negócios também influenciam a capacidade de atrair investimentos e sustentar atividades produtivas.
Nesse contexto, a ampliação da infraestrutura de abastecimento pode ajudar a remover obstáculos enfrentados por pequenos negócios e criar condições mais favoráveis ao planejamento e à continuidade das atividades econômicas.
“Existe, portanto, uma dimensão de desenvolvimento territorial. A infraestrutura amplia as possibilidades econômicas de uma região”, afirma o professor.





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