Na esquina da rua onde todos brincavam de queimado, bandeirinha e um monte de brincadeira que não se vê mais por aí, havia um terreno baldio. Nele, uma goiabeira rara e decenária. Apesar de velha, ainda tinha galhos fortes e dava muita goiaba. Goiaba branca, não vermelha. Era tanta fruta, que estragava no chão. Os passarinhos e morcegos faziam a festa. Até gambá aparecia, porque ninguém comia. O motivo todo mundo sabe: goiaba branca só presta pra doce ou suco ou sacolé. Comer ninguém quer, porque dá muito bicho.
O que ninguém sabia, era que havia mais a contar sobre o segredo da longevidade dessa árvore. A única que parecia saber era a irmã autista do João, Clarissa, que também é minha prima. Um amor de menina. Muito inteligente. Enquanto os meninos brincavam de golzinho na rua, com chinelos de dedo fazendo as vezes de traves e aquela bola Dentão de Leite, como se fossem profissionais, e a gente brincava de elástico e de adedonha, Clarissa ora brincava com as meninas, ora ia lá brincar sozinha no terreno da esquina. E sempre voltava sorrindo ou calada ou surpresa. Não havia um dia em que Clarissa voltasse da goiabeira branca sendo a mesma.
Minha tia dizia que era coisa da cabeça dela, do mundinho dela. Meu tio não dizia nada. Eu passava as tardes na casa dos meus primos, que moravam perto, brincando com Clarissa e João, mas nunca tinha ido até o terreno, conferir as histórias que contavam sobre a goiabeira. Uma vez, voltando da escola, tia Caroline perguntou:
- Clarissa, onde está a maçã que eu coloquei de merenda pra você? Você comeu, filha?
- Comi – respondeu ela. A mãe continuou:
- E onde está a semente?
- Vai nascer maçã, mamãe – Clarissa repetiu essa frase umas cinco vezes, até tia Carol entender que ela havia jogado a semente em algum lugar:
- O quê? Onde você jogou?
- A goiabeira me falou.
Foi daí que eu e João entendemos que a prima tinha jogado as sementes da maçã no terreno vazio da esquina. Quanto à goiabeira ter falado alguma coisa, ninguém acreditou de início, mas eu fiquei com uma pulga atrás da orelha. O que aquele pé de goiaba tinha de especial?
Esperei até as férias de janeiro para investigar o mistério. Convidei o João para ir comigo. Ele aceitou. Sairíamos de casa depois do almoço, para comprar alguma coisa na barraca do Seu Edson. Na volta, passaríamos no terreno, para falar com aquela goiabeira até ela responder. Na teoria, tudo certo. Na prática, João ficou com medo não quis ir. Então eu fui sozinha. Comprei uma caixa de fósforos e um quilo de sal para minha tia e pedi o troco de balas Juquinha. No caminho de volta, encontrei uma nota de 20 reais no chão, toda molhada, mas ainda boa. Achado não é roubado. Guardei no bolso e fui enfrentar a árvore.
Chegando lá, fiquei um minuto parada diante dela, sentindo aquele cheiro de gioaba branca madura subindo com a terra molhada. O chão repleto de frutas caídas e espatifadas, com bichinhos brancos saindo, feito cravos e espinhas monstruosas. Eu não disse nada. A goiabeira também não. O barulho da chuva na minha capa misturava-se ao das motos e carros que passavam nas ruas, que começavam a esvaziar com a chegada da noite.
Olhei para o céu e vi uma folha cair lentamente em direção à minha mão aberta, quando uma gota d’água acelerou sua queda e um trovão estrondoso me assustou no momento em que a peguei:
- CATAPRAM!
Larguei a folha por lá e fui correndo para casa com a sacola na mão. João, curioso, veio saber:
- E então? O que ela disse?
- Quem?
- A goiabeira, ué! O que ela te falou?
- Nada. Ela não disse nada.
(Continua na próxima semana...)