O dia amanheceu como qualquer outro e ninguém pressentiu que pudesse haver algo de extraordinário. O sol veio, a lua foi-se, a chuva banhou o seio da terra, com a delicadeza de um agricultor semeando-a, e soprou as notas marcantes do perfume característico. Aquele perfume que atrai gente viva.
No sopé do morro da rua Assuruá, os meninos começavam a aproveitar o primeiro dia das férias de fim de ano. Entre conversas e histórias de recreio, veio o João Paulo com a bola nova que ganhara do pai:
— E aí? Bora jogar?
O convite soou presunçoso. “Eu sou o dono da bola. Vão ter que me escolher”.
— Aguenta aí… Ainda tá cedo. Deixa o pessoal tomar café.
O cheiro do café da Dona Dalva invadia o morro. Aquele café coado no coador de pano, vindo do Sul de Minas, torrado e moído em máquinas antigas, que ela conservava desde os tempos da avó.
Passado o cheiro da terra e do café, o dono da bola profissional tirou o time com o metido a Romário, o Xandinho. O jogo começou. As minitraves foram trazidas pelo Chacal. Cada uma delas tinha aceitado dois gols. O empate juntou torcida. Aí um chute em falso arrancou o tampão do dedo do Jotapê. Substituição. Choro. Em segundo plano, o futebol seguia, com Camelo na zaga, cobrindo o desfalque. Enquanto os risos das meninas misturavam-se às conversas dos adultos nas calçadas, à sombra da jaqueira do Seu Romoaldo, e aos gritos de quase gol, João Paulo vivia o silêncio daquela dor focal no dedão do pé, como se não houvesse mais ninguém à volta. “Minha mãe vai me bater” — Era só o que ele pensava.
Ao seu lado, somente as duas Marias da rua demonstravam alguma empatia. Uma assoprava ingenuamente. A outra sentou-se ao lado dele, como se fizesse uma prece. Então, apareceu Caiú. Ele tinha o dedo indicador vermelho, da cor de sangue. Aproximou-se, com vestes brancas, feito um marinheiro, e olhou para o alto. Uma pomba que estava no fio pousou misteriosamente sobre sua cabeça e sumiu. Caiú abaixou-se, olhou nos olhos do garoto, como se o conhecesse, tocou-lhe o pé sem dizer palavra alguma e levantou. A Maria, filha de Dalva, viu-o. A outra, filha de Djanira, também. Uma luz intensa brilhou e, quando João Paulo levantou-se, Caiú não estava mais lá.