A produção artística de mulheres da Baixada Fluminense ganha espaço em uma exposição que aproxima diferentes gerações e propõe novas leituras sobre a história da arte. A mostra “Correspondências” será aberta em 7 de novembro, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (CMAHO), na região da Praça Onze, no Rio de Janeiro, com entrada gratuita. A iniciativa tem apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e ficará em cartaz até 2 de janeiro.
A exposição reúne trabalhos de dez artistas contemporâneas que vivem ou desenvolvem suas trajetórias em municípios como Nova Iguaçu, São João de Meriti, Belford Roxo, Magé, Guapimirim e Mesquita. Pinturas, esculturas, instalações, gravuras, vídeos, fotocolagens e objetos compõem a mostra, que aborda temas como identidade, ancestralidade, negritude, território, religiosidade, maternidade, violência, família, cotidiano e mobilidade urbana.
Participam da exposição Asmahen Jaloul, Karine de Souza, Marina Souza, Travadon4, Pietra Canle, Priscila Rooxo, Roberta Holiday, Thais Basilio, Val Pires, conhecida como Xilopretura, e Juliana Cavalcanti di Siqueira. O conjunto reúne diferentes experiências e perspectivas, incluindo mulheres negras, uma artista trans, uma artista com deficiência e uma criadora de origem libanesa-brasileira.
Diálogo entre passado e presente
O conceito de tempo espiralar, desenvolvido pela pesquisadora Leda Maria Martins, orienta a proposta curatorial. Nessa perspectiva, o passado não é entendido como algo encerrado, mas como uma presença que continua influenciando o presente e adquirindo novos significados.
A partir dessa abordagem, as obras das artistas da Baixada dialogam com a produção de mulheres que atuaram no século XX. A proposta é identificar aproximações entre temas que atravessam diferentes períodos históricos, reconhecendo como questões ligadas à identidade, à ancestralidade e à religiosidade permanecem presentes, embora assumam novas formas nas experiências contemporâneas.
A curadoria é assinada por Tamara Campos, coordenadora geral da mostra, em parceria com João Paulo Ovídio e Beatriz Roza. Segundo Tamara, o objetivo é estabelecer relações entre as obras sem limitar as artistas a classificações rígidas.
“Procuramos traçar ‘correspondências’ visuais que não enquadram as artistas em rótulos, mas tensionam as narrativas oficiais. Unindo vozes contemporâneas da Baixada Fluminense a nomes femininos da nossa história da arte, apresentamos a memória como um acontecimento vivo e em contínua reinvenção”, explica a pesquisadora.
Pesquisa e descoberta durante a visita
Além das obras expostas, o público poderá acessar conteúdos complementares por meio de QR codes distribuídos pelo espaço. Os códigos levam a informações sobre trabalhos de mulheres artistas do século XX que estabelecem relações com as produções apresentadas na mostra.
Algumas das peças são inéditas ou foram desenvolvidas especialmente para “Correspondências”. A experiência propõe que os visitantes investiguem conexões entre diferentes linguagens, épocas e trajetórias, ampliando o contato com a produção artística feminina.
Artistas e territórios da Baixada
As obras refletem a diversidade de pesquisas desenvolvidas pelas participantes. Asmahen Jaloul, de Mesquita, investiga imigração, diáspora, identidade e pertencimento a partir de memórias pessoais e familiares. Karine de Souza, de Nova Iguaçu, trabalha com tecidos, bordados e objetos, explorando memória e identidade em diálogo com o afrofuturismo e o afropresentismo.
Marina Souza, de Duque de Caxias, desenvolve trabalhos com instalação, desenho, escrita e escultura em argila, com pesquisas sobre ancestralidade e identidade negra. Travadon4, de Belford Roxo, utiliza principalmente gravura e vídeo para abordar corpo, gênero, território e religiosidade, questionando padrões sociais que afetam sujeitos historicamente marginalizados.
Também de Nova Iguaçu, Pietra Canle aproxima arte periférica, arte urbana, colagem e fotografia, com destaque para identidades negras e questões sociais. Priscila Rooxo, com atuação entre São João de Meriti e Mesquita, investiga as formas de organização e manutenção da vida cotidiana nas comunidades, especialmente o trabalho desenvolvido por mulheres.
Roberta Holiday, de Belford Roxo, utiliza a pintura para recriar e ressignificar a presença negra na história da arte. Thais Basilio, também de Belford Roxo, explora pintura, instalação e videoarte, com pesquisas sobre os corpos submetidos às dinâmicas do trabalho e às desigualdades sociais. Em 2026, a artista foi indicada ao Prêmio Pipa, segundo as informações divulgadas pela organização da exposição.
Val Pires, criadora do projeto Xilopretura e residente em Guapimirim, trabalha com xilogravura e representa mulheres que exercem papéis importantes nas comunidades, como curandeiras, doulas, mães e tias. Já Juliana Cavalcanti di Siqueira desenvolve pesquisas sobre natureza, corpo feminino, padrões de beleza e espiritualidade, utilizando pintura, aquarela e escultura.
Ao reunir essas trajetórias, “Correspondências” amplia a visibilidade da produção artística da Baixada Fluminense e propõe uma reflexão sobre como as experiências de mulheres artistas atravessam gerações, transformam narrativas históricas e contribuem para diversificar os espaços de reconhecimento cultural.





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