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Oziel Mabundo Quibuila

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Por: Fernando Lúcio de Oliveira
08/01/2026 às 06h00

Oziel Mabundo Quibuila nasceu no Luongo, bairro do município de Catumbela, província de Benguela, em Angola. Não era herdeiro, nem membro da administração pública, apenas um menino cheio de vida e de sonhos, descendentes de agricultores e artesãos. Um dia, uma ideia começou a brincar em sua cabeça. Mal sabia ele que viraria coisa séria no futuro.

Estava brincando com seu amigo Daniel e meninos do bairro, com a bola que ganhara de presente de seu tio, Bakari Ombela Quibuila, que morava na capital. Não era muito bom em futebol. Tinha mania de construir. E uma vez ou outra era flagrado sozinho, absorto em seu mundo, brincando de qualquer coisa que ninguém compreendia.

Numa dessas vezes, Daniel notou que Oziel brincava de amontoar pedras e as amontoava de um jeito tão especial, que parecia familiar:

- O que é isso, Ozi?

Ele não respondeu. O amigo parou um instante e observou com mais cuidado. Então, olhou para Oziel e disse:

- Parece a Ponte 4 de Abril.

Oziel sorriu discretamente, como quem reconhecia que era isso mesmo que estava a construir. Depois desse episódio, não parou mais de construir as mais variadas coisas, com pedrinhas que encontrava pelos terrenos. Seus irmãos não compreendiam. Era quieto, solitário, parecia sempre distante. Dos amigos, apenas Daniel parecia se interessar. Os pais trabalhavam tanto, que não percebiam o talento do menino. A mãe sobrevivia do artesanato e da terra. O pai falecera quando ele tinha apenas 6 anos.

Em um natal, sem ninguém esperar, a família de Oziel recebeu a visita de Bakari Ombela. Ele falou sobre o curso de habilitação que fez para a Marinha Mercante e sobre como estava começando a se tornar bem-sucedido no ramo, trabalhando com suporte e salvatagem a navios e plataformas offshore. Eles conversaram e celebraram, inclusive Oziel, que se divertiu muito com as brincadeiras e presentes do tio.

No dia seguinte, Bakari passou a manhã com o sobrinho, antes de pegar o voo programado para a noite. Eles falaram sobre a escola, sobre sonhos, sobre a Marinha Mercante, um monte de coisas. Porém, o que inquietou o visitante foram duas pequenas peças, que Oziel construíra com pedras, lixas, facas e outros objetos rudimentares. Não era o artesanato comum que se via pelas feiras. Era algo mais promissor: uma miniatura da Ponte 4 de Abril e outra da Igreja e Paróquia do Sagrado Coração de Jesus. E a visão aguçada, de um homem que agora era do mar, observou isso com perspicácia.

Bakari despediu-se por ora e voltou para os navios e plataformas de Luanda, mas ficou com a sensação de que voltaria em breve para observar o progresso daquele pequeno artista das pedras, de apenas 10 anos de idade. Nos meses seguintes, comunicou-se com mais frequência com sua irmã, Diara Quibuila, mãe de Oziel. E começou a tentar convencê-la de que tinha um pequeno gênio em casa. Por mais que ela desejasse isso, não conseguia ver exatamente o mesmo. Talvez sua visão estivesse embaçada pela pobreza, pelo preconceito e pelas desigualdades sociais enfrentadas na região onde morava, mas algo em seu coração de mãe sabia que o filho era grande. Era como se uma voz silenciosa falasse em seu interior. (...)

Continua na próxima quinta-feira.

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