Quinta, 05 de Março de 2026
22°C 30°C
Queimados, RJ
Publicidade

Oziel Mabundo Quibuila (continuação)

***

Por: Fernando Lúcio de Oliveira
15/01/2026 às 06h00

No dia seguinte, Bakari passou a manhã com o sobrinho, antes de pegar o voo programado para a noite. Eles falaram sobre a escola, sobre sonhos, sobre a Marinha Mercante, um monte de coisas. Porém, o que inquietou o visitante foram duas pequenas peças, que Oziel construíra com pedras, lixas, facas e outros objetos rudimentares. Não era o artesanato comum que se via pelas feiras. Era algo mais promissor: uma miniatura da Ponte 4 de Abril e outra da Igreja e Paróquia do Sagrado Coração de Jesus. E a visão aguçada, de um homem que agora era do mar, observou isso com perspicácia.

Bakari despediu-se por ora e voltou para os navios e plataformas de Luanda, mas ficou com a sensação de que voltaria em breve para observar o progresso daquele pequeno artista das pedras, de apenas 10 anos de idade. Nos meses seguintes, comunicou-se com mais frequência com sua irmã, Diara Quibuila, mãe de Oziel. E começou a tentar convencê-la de que tinha um pequeno gênio em casa. Por mais que ela desejasse isso, não conseguia ver exatamente o mesmo. Talvez sua visão estivesse embaçada pela pobreza, pelo preconceito e pelas desigualdades sociais enfrentadas na região onde morava, mas algo em seu coração de mãe sabia que o filho era grande. Era como se uma voz silenciosa falasse em seu interior.

Alguns anos depois, Bakari voltou a Benguela, com uma equipe de médicos que conhecera em uma de suas viagens, e os incumbiu de acompanhar o menino por um período de tempo, dando-lhe o suporte necessário ao seu desenvolvimento. Três meses depois, o diagnóstico era o de que Ozi estava situado no Transtorno de Espectro Autista, com traços de habilidades muito especiais, características da chamada Síndrome de Asperger.

Daí em diante, o menino, que já tinha 13 anos, seria levado pelo tio, com consentimento da mãe, para morar em Luanda. Restava saber se ele queria.

*Continua na próxima quinta-feira (parte final)...

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários